Aconteceu em Sete Rios, na esquina da Estrada de Benfica com o Jardim Zoológico, em pleno bairro de Alvalade. Ao leitor que conhece a cidade pode parecer estranho este último nome, Alvalade, ser aqui metido.
E, é certo, aquela esquina fica a cinco quilómetros, a uma hora em passo estugado até ao tal bairro… Mas isso é uma consulta distraída de mapa, conversa de código postal. Do que eu falo é da aparição que me surgiu em Sete Rios, a assombração da música dos Verdes Anos, que se seguiu e que ali me possuiu. Aquela esquina, diga o leitor o que quiser, é Alvalade profundo. Como passo a explicar.
Então, meados de 1980, ia eu à janela do autocarro a caminho dos fins de Benfica, ladeando pela esquerda o Jardim Zoológico, num para arranca de fim de tarde, hora de ponta.
Comecei por o ver de costas, ele também ladeava, mas a pé, o muro de alvenaria e cimo de ferro forjado do Zoo. Ia triste, soube-o ainda antes de lhe ver a face. Vinha provavelmente do Hospital de São José, onde arquivava radiografias, e ia para casa.
Quando o autocarro lentamente o ultrapassou, dei conta do perfil de cabelos revoltos, testa, nariz, boca e queixo, tudo forte, até os óculos de massa. E confirmei a tristeza, também forte como dedos de guitarrista. Reconheci-o, claro.
Metros adiante foi ele que me ultrapassou e ao autocarro, estávamos parados no trânsito. Eu já o esperava, queria voltar a vê-lo despontar à altura do meu ombro direito – o muro do Zoo era longo. Talvez o cruzamento com Carlos Paredes voltasse a repetir-se naquela tarde, disse-me. Eu queria que o encontro voltasse a ser pessoal, marcante, sentido, como uma nota só. Aquela nota.
Assim foi. Como já tinha ouvido pouco antes, quando o reconhecera, a nota soou-me de novo. Vi-o, a ele, e ouvi um Ré.
Ouvi este e seguiu-se uma das mais belas canções portuguesas. Sem palavras, só imagens de Alvalade a preto e branco, com cinzentos difusos de filme de Anos 60.
E houve mais dessa nota inicial e única, sempre a mesma, naquela tarde abençoada pelo engarrafamento. Ele a passar por mim, eu a passar por ele, ele a passar por mim e o autocarro, acelerando, Estrada de Benfica abaixo, a acabar com uma tarde gloriosa, memorável. De cada vez, e foram cinco, a nota em Ré natural. E, em todas, seguiu-se a canção que ela evocava.
Assim confirmei a importância de Alvalade na minha vida. Da primeira vez que vi o filme Verdes Anos já tivera uma assombração. Apareceu-me em som um deus, Carlos Paredes, ainda antes de o saber capaz de me trazer um tema inteiro só por lhe ouvir aquela sua solitária nota inicial de guitarra portuguesa.
Ou, ensinou-me a vida adiante, a mesma – a nota só – mas tocada por outros, em piano, em corda de violino ou o sopro inicial de trompete. Eu ouvi-a, e havia uma pausa. E, logo, o resto da pauta inteira.
Ou, mais extraordinário, como me mostrou o encontro já quarentão em Sete Rios, sem talvez nota nenhuma, pois na memória daquele instante não me recorda, haver uma orquestra dentro do autocarro, nem sequer uma guitarra, rádio portátil ou altifalante, nem havia ainda telemóveis. E para o primor daquele som não havia nem há assobio capaz.
Talvez tudo se tenha passado só na minha cabeça. Em música sou exaltado consumidor, mas produtor analfabeto. Incapaz até em ritmar com unhas uma caixa de fósforos ou, muito menos, de arrancar uma nota musical do assento do passageiro da frente. Mas que naquela tarde e naquela esquina ouvi Verdes Anos, ouvi.
Há dias, estava eu a contar isso ao fotógrafo Inácio Ludgero, um amigo. Há contares estranhos que só se contam a camaradas com quem já partilhámos estranhezas.
Em 1997, viajámos os dois numa avioneta atafulhada com um desses estrados de ripas de madeira, com notas de zaires, então a moeda do Congo (Kinshasa). Acompanhávamos um fazendeiro português que ia pagar os salários dos seus trabalhadores, no lago Mai-Ndombe, no norte do país.
Havia, pois, um elefante no meio da cabina. Era uma palete de tamanho que entupiria um corredor de supermercado, envolta em plástico e que expunha maços de notas valendo um milhão e cinco milhões de zaires. Cada nota, não os maços! Se a de 1 milhão de zaires valia um dólar americano quando partimos de Kinshasa, já esse dólar valia a nota de 5 milhões quando aterrámos. Uma sociedade alucinada.
A efígie era de Mobutu, o ditador em decadência, que nessa altura já andava fugido. Aterrámos na margem do lago Mai-Ndombe, cuja água tinha a densidade líquida que só vi, miúdo, quando decidi por curiosidade partir um termómetro de mercúrio. A avioneta foi recebida por guarda de honra e banda fardada, todos de pés descalços e ninguém ligou à palete milionária, depositada na terra batida da pista.
Termos companheiros que viveram connosco notas assim, permite-nos ter com quem partilhar um Ré ao lado da jaula onde na semana anterior eu apresentara à minha filha a sua primeira girafa verdadeira. Por falar nisso, os sons das girafas são de tão baixa frequência que se tornam inaudíveis para o ouvido humano. Também a girafa não foi quem me arrebatou, no autocarro da Carris, com o tal Ré.
“Na entrada de Sete Rios, o Paredes?”, limitou-se a perguntar-me o fotógrafo Ludgero. Pausa. Já estava eu quase a trautear os Verdes Anos e ele cortou: “Tem piada, foi aí que eu o fotografei. À frente dessa esquina.”
Em 1979, contou-me o próprio, Inácio Ludgero fora fotografar Carlos Paredes a casa, na Estrada de Benfica. Agarrei-me à pequena coincidência, a minha estranha história estava a ganhar contornos materiais, palpáveis, Paredes morara ali.
Outro documento, além da palavra do meu amigo: a entrevista foi publicada em 25 de julho de 1979, no jornal de artes e espetáculos Se7e (era semanário e tinha desenhado um dos mais inteligentes títulos de sempre da Imprensa portuguesa).
Em casa de Paredes, o fotógrafo viu uma guitarra portuguesa. Pediu ao virtuoso para lhe fazer uma foto com ela. Carlos Paredes hesitou, a casa estava desarrumada, talvez fosse essa a razão. Mas o meu amigo ouviu esta extraordinária desculpa: “A guitarra não é minha, é do meu paizinho.”
Artur Paredes estava internado num lar e o fotógrafo Ludgero insistiu. Do telefone fixo, ligou-se para o lar, o filho falou com o pai: “Paizinho…” E este disse que sim.
Então, fotógrafo e guitarrista foram às vizinhas instalações da antiga Escola Técnica da Pide, ocupada depois do 25 de Abril por associações de moradores – mesmo à frente daquela esquina de Sete Rios, começo da Estrada de Benfica, que abriu este texto. Carlos Paredes tinha lá uma sala para ensaiar.
Foi, além de lições e génio, a herança que Artur Paredes deixou ao filho – duas guitarras portuguesas. Ele morreu em 1980 e no verão anterior, como dissemos, uma dessas guitarras foi fotografada dedilhada por Carlos Paredes – apareceu na capa do Se7te. Lá dentro, na crónica do diretor José Carlos de Vasconcelos que abria a entrevista – com título-simbiose “Paredes é nome de guitarra” – o instrumento é exibido de pé e frontal, pousado na coxa esquerda do artista, sentado. Esta foto está há anos e ainda hoje na entrada da Sociedade Portuguesa de Autores, na avenida Duque de Loulé.
Se o leitor quiser mais e melhores informações que as minhas – que só lá cheguei por assombrações – dedilhe, na Net, “Pedro Caldeira Cabral”, compositor, instrumentista e divulgador da guitarra portuguesa.
Saberá da ligação entre os deuses e os carpinteiros; entre os Paredes e os que aumentaram o volume do som e moldaram as madeiras das guitarras. O que é também um passeio por Olimpo, quer dizer, por essa Lisboa fora.
Desde João Pedro Grácio (1872-1962), o patriarca de guitarreiros que fundou oficina na Rua da Boavista, na Bica, em 1890. Há um século, ele tinha a Guitarraria Leiriense do Largo de São Martinho, ao Limoeiro. Que beleza uma tabuleta a fazer-nos soletrar “guitarraria”. À oficina foi Artur Paredes, para arranjos no instrumento e mudar cordas.
João Pedro Grácio tem rua recente no Parque das Nações. De facto, uma travessa – rua que não continua, caso contrário iria romper as linhas de comboio da Estação do Oriente. Ver no mapa a nobreza do antigo carpinteiro. Ele que, como poucos, ofereceu aos grandes tocadores sons vertiginosos, pode agora, na sua vida toponímica, permitir-se ser humilde. Os mapas desenham assim a “Rua João Pedro Grácio”: 12 cordas, em seis pares, da guitarra portuguesa param, não prosseguem viagem e dão prioridade a 8 linhas férreas e a 16 grossos carris.
Poesia ferroviária.
Um filho do patriarca, Joaquim (no métier de guitarreiro, conhecido como Kim Grácio), saiu da oficina da família e fez outra para dar apoio a uma escola de guitarra clássica fundada nos anos 50, que ainda existe na avenida João XXI, perto do Areeiro (pouco a pouco, o bairro de Alvalade vai aparecendo…)
Nessa escola, este Grácio trabalhou com Artur Paredes, sobre o afinadíssimo assunto que é a guitarra.
Um neto do patriarca e sobrinho de Kim Grácio, Gilberto Grácio fez uma famosa oficina no Cacém. Aí ele construiu um guitarrão ou guitolão com Carlos Paredes. Trazido a público em 2005, no ano seguinte à morte do guitarrista, foram feitos só dois exemplares. Gilberto Grácio faleceu em 2021 e com ele uma escola familiar.
“Guitarão, um corpo de uma guitarra de Coimbra, mas com um comprimento vibrante de corda e viola”, fórmula que eu não tenho ciência para entender, só a escrevo porque a roubei ao já citado Pedro Caldeira Cabral. O que a mim interessa é sublinhar a sincronia de duas dinastias, uma de carpinteiros, outra de artistas, ambas nobres.
Já lá voltaremos a Alvalade no episódio seguinte, o nº 11, da série Fala-me de Ti, Lisboa. O bairro será protagonista a corpo inteiro (prédios e gentes) e prometo (enfim…) que dessa vez não haverá esquina sem comprovativo de mapa toponímico oficial.
Neste episódio nº 10, permiti-me algumas deambulações extra bairro de Alvalade para confirmar a tese de que Lisboa é um corpo vivo em que pormenores daqui acabam acolá, e as coincidências são recorrentes numa cidade antiga e variada, quer dizer, com raízes que não a permitem ser avariada pelo bocejo.
Por exemplo, se este episódio, que o leitor agora lê, foi dedicado à música do filme Verdes Anos, visto vinte anos antes de me cruzar de autocarro com Carlos Paredes, e influenciando essa viagem, uma segunda assombração foi ter visto a mais bela mulher que passeou por um filme português, Isabel Ruth.
Depois do filme, no fim da década de 60, fui viver para Paris. Nunca lhe perdoarei ela não ter ido ter comigo – e não chega como desculpa ela nunca me ter conhecido de lado nenhum. Alvalade é um assunto que eu tenho de resolver comigo próprio.
Nesta série da Mensagem,“Fala-me de ti, Lisboa”,Ferreira Fernandes(texto) eNuno Saraiva(ilustração) percorrem lugares de Lisboa e contam as histórias, coincidências e personagens que fazem de uma cidade, uma cidade. Um atlas histórico, de memórias e cruzamentos temporais, em 20 episódios, espalhados por todos os bairros de Lisboa. Tem o apoio da Câmara Municipal de Lisboa.









