No ano em que o autor Mário Cláudio comemorou 50 anos de carreira literária, a editora Dom Quixote, onde trabalho, organizou uma festa para celebrar suas diversas facetas, incluindo a de letrista de fado. É importante lembrar que o romancista foi laureado com o Prémio Autores da Gala da SPA pelo seu trabalho Retrato, que foi interpretado por Carlos do Carmo e musicado por Bernardo Sassetti.
Residindo Mário Cláudio no Porto, inicialmente acreditamos que seria difícil encontrar intérpretes de fado de qualidade para três ou quatro composições do autor, algumas das quais eram inéditas. Entretanto, com o auxílio de alguns amigos da cidade, surgiram diversos nomes, revelando que a nossa noção de que o fado era uma canção exclusivamente de Lisboa estava equivocada.
A fadista Patrícia Costa foi a escolhida e desempenhou seu papel com excelência, agradando imensamente ao autor! Ela nos ensinou que existem muitos grandes fadistas originários do Porto.
Eu já conhecia Maria da Fé, que certa vez compartilhou sua história comigo, mas não sabia que também eram do Porto artistas como Tony de Matos, Beatriz da Conceição, Lenita Gentil, Florência, e da geração seguinte, Mísia e Maria Ana Bobone. Apesar de muitos instrumentistas renomados serem da capital, fiquei surpresa ao descobrir que Fontes Rocha, um dos queridos acompanhantes de Amália, também era do Douro.
Com o tempo, percebi que a capital do Norte não é a única cidade, além de Lisboa, que deu nascença a fadistas; mais ao norte, há Barcelos, onde nasceu Gisela João, e o município de Arcos de Valdevez, onde Marco Rodrigues se mudou aos oito anos vindo de Amarante.
O Alentejo também é lar de grandes nomes do fado: sem ser exaustiva, podemos mencionar a Portalegre, terra natal da icônica Lucília do Carmo, a Évora de Francisco José (conhecido pela música Olhos Castanhos, que encantava minha sogra), a bela Serpa com Ana Sofia Varela e Beja, onde está António Zambujo, que, mesmo não se apresentando como fadista, também se dedica ao fado.
As localidades frias e de cerejas que viram nascer as queridas Celeste Rodrigues e Alexandra são do Fundão, enquanto a calorosa voz de Cidália Moreira provém de Olhão, no Sul, onde a temperatura é mais elevada.
Na região do Centro, surgiram as notáveis Joana Amendoeira e Ana Moura em Santarém, Ana Laíns em Tomar e Cristina Branco em Almeirim. Além disso, há quem cante o fado e tenha nascido em Regiões Autónomas (sabiam que Kátia Guerreiro é dos Açores?), em ex-Colônias (Mariza e Maria João Quadros são de Moçambique, enquanto Paulo Bragança vem de Luanda) ou até fora de Portugal, como Lina Rodrigues (nascida na Alemanha), José Manuel Osório (no então Congo Belga) e muitos luso-descendentes que se apaixonaram pela “canção portuguesa”, como a cantora Nathalie Pires.
É o fado do fado – ser do mundo inteiro.
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