“Tesouros Esquecidos” é um dos projetos premiados pelo programa “Lisboa, Cultura e Media” 2024, da Lisboa Cultura e Câmara Municipal de Lisboa.
Embora possamos celebrar a arte de Aurélia de Souza em Lisboa, isso não se deve ao amor da artista pela cidade. Nascida em Valparaíso, Chile, em 1866, transferiu-se com a família para o Porto quando ainda era criança. Ali viveu e faleceu, tornando-se uma verdadeira portuense. De acordo com estudiosos, não existem evidências de que ela tenha visitado o sul para ver os Jerónimos ou o Tejo. Em uma carta à sua irmã Lucha, descreve as “senhoras de Lisboa” de forma menos que elogiosa, referindo-as como uma “súcia de caganifâncias”.
A chance de apreciar No atelier no MNAC, no Chiado, decorre da visão de Columbano Bordalo Pinheiro. Em 1916 – cinco décadas antes de José Augusto-França elevar a artista ao status reconhecimento atual – Columbano, como diretor do Museu, adquiriu a obra onde Aurélia se retrata curvada, exausta, em uma pose de derrota sobre sua mesa de trabalho. A um século de distância, a artista e seu comprador merecem aplausos dos que transitam por Lisboa. Embora existam poucos quadros de Aurélia de Souza por aqui, este pequeno óleo de 55 x 48 cm, que nos oferece uma visão não idealizada dos bastidores da arte, é uma verdadeira preciosidade.
O primeiro aspecto que se destaca é o contraste entre a luz que irrompe do quadro ao centro e as tonalidades escuras que dominam o restante do atelier. Aurélia começou a pintar cedo, estudou na Academia de Belas-Artes do Porto e na Académie Julian em Paris, abandonando qualquer projeto familiar ou existencial em nome da pintura. Já próximo dos 50 anos, parece criar nesta tela um relato agridoce sobre sua própria vocação. Ao inserir o espectador em seu espaço de trabalho – replicando um motivo tradicional nas artes, explorado por mestres como Rembrandt e Courbet – oferece uma visão nada gloriosa da vida artística.
O que Aurélia de Souza nos apresenta é um ateliê pouco ventilado, quase sufocante, iluminado pela energia de uma nova obra, mas ainda dominado pelas sombras.
As portas do atelier estão fechadas, e as cortinas puxadas; a vista da Quinta da China – que em outras obras se apresenta cheia de graça – nos é categoricamente negada. A aparência cansada da pintora e a vestimenta (uma mancha de verde-escuro com cabelo solto) intensificam ainda mais a sensação de um ambiente irrespirável. Se comparamos No atelier a trabalhos anteriores de Aurélia, notamos uma escolha significativa: ela passa de autorretratos frontais – como Auto-retrato com casaco vermelho ou Santo António – para uma auto-representação em que o rosto permanece oculto.
Esses sinais, alinhados à luz quase mística no centro, parecem expressar uma perplexidade em relação ao contraste entre a força da arte e a fragilidade da artista. É muito conhecido o apelo evangélico que afirma que o grão de trigo deve morrer para frutificar. Em No atelier, Aurélia parece questionar, esgotada e perplexa, que estranha forma de vida é essa na qual uma pessoa se permite ser consumida para que um retângulo repleto de formas e cores alcance seu esplendor.
Pormenores menos evidentes podem passar despercebidos à primeira vista. O quadro dentro do quadro, que constitui a única fonte de luz em toda a tela, representa Glicínias, um pastel da artista. Além disso, pode não ser percebido que, no grande autorretrato que é No atelier, existem dois pequenos autorretratos pendurados nas paredes. Um deles replica o Auto-retrato enquanto jovem. O outro, à esquerda, reproduz uma das obras mais notáveis de Aurélia – o Auto-retrato com o laço negro – que levou Ruy de Almedina a afirmar que «o talento de braço dado com a audácia». A mesma crítica mencionou que o único defeito deste autorretrato é o laço, que dá a impressão de “quase estrangular”, sem ter considerado que o dito “defeito” pode ser, na verdade, uma marca de uma pintura instigante que se transforma em um perturbador espelho existencial.
De qualquer forma, retornando a No atelier, o que é importante notar é que se trata de uma espécie de boneca russa de autorretratos, uma auto-representação contendo outras auto-representações, como se as questões levantadas pela artista recebesse múltiplos ecos inconclusivos.
A pintura de Aurélia de Souza pode ser descrita como um quem sou eu? envolto em trevas, uma investigação insistente e solene sobre sua própria identidade. É uma tela que funciona como autoexame e desabafo, com fantasmas de si mesma delicadamente dispersos e uma luz obstinada que brilha em meio à escuridão. É isso que me fascina em No atelier: a vida do artista retratada de dentro – não do exterior que clama “gosto!” ou “não gosto!”, mas do interior de uma vocação que é ao mesmo tempo fascinante e difícil de compreender.
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