Em 2019, Filipe Raposo iniciou um projeto denominado Trilogia das Cores. Neste “ensaio sonoro e visual”, começou explorando a cor vermelha em Øcre vol. 1, seguiu com a cor preta em Øbsidiana vol. 2 e agora apresenta a terceira cor com o lançamento de Variações do Branco vol. 3. Na quinta-feira, dia 19, às 20 horas, o pianista se apresenta com as composições deste novo disco no pequeno auditório do Centro Cultural de Belém, revelando uma música inspirada numa tonalidade “que simboliza o renascimento, a primavera, o sul através da cal, e que também está presente nas grandes planícies geladas e nos vastos desertos de areia. É a cor da resiliência e, em algumas culturas orientais, a cor do luto”, escreve.
A Trilogia das Cores é uma reflexão artística sobre a influência da cor ao longo da História e também sobre o percurso de Filipe Raposo enquanto músico: vermelho, preto e branco, as três cores de Orfeu. A partir de uma lista simbólica, como o branco-cal, o branco-pão, o branco-gelo, o branco-linho, o branco-luz, ou a noite branca, a cor desdobra-se em múltiplas e renovadas interpretações. Neste ensaio sonoro, como um rio lento que se afeiçoa à paisagem por onde flui, a cor vai sugerindo e moldando o processo composicional e dramatúrgico. Cada um dos discos é acompanhado por um livro que associa as músicas a imagens, textos e citações – mas nada se compara à experiência de ouvir ao vivo, dizemos nós… ao vivo e a cores, claro.
Aqui estão as sugestões culturais para o restante da semana.
O Pão, de Manoel de Oliveira, e Zéfiro, de José Álvaro Morais
16 de junho, 19h30
Cinemateca Portuguesa
Uma sessão dupla na Cinemateca, que acontece em virtude do lançamento de Variações do Branco vol. 3. “Dois filmes que considero essenciais para compreender o cinema português: Zéfiro é uma carta de amor ao grande sul, mostra a posição geográfica lisboeta, única e particular, que combina a natureza mediterrânica com a costa atlântica, e O Pão é uma breve história do pão (português), num documentário repleto de beleza e poética”, comenta Filipe Raposo, que estará presente na projeção. Rodada em 1963, a curta de Manoel de Oliveira é seguida pelo filme de José Álvaro Morais, estreado em 1993, com os protagonistas José Meireles, Paulo Pires e Inês de Medeiros.
Desconstruir o Colonialismo, Descolonizar o Imaginário
Até 2 de novembro
Museu Nacional de Etnologia
Filipe Raposo começa recordando os versos de José Mário Branco, em Canto dos Torna Viagem, ao falar desta exposição: “Tentemos então ver a coisa ao contrário / Do ponto de vista de quem não chegou (…) Os navegadores chegaram cá a casa / E foi tudo novo p’ra eles e p’ra mim / A cruz e a espada e os olhos em brasa / Porque me trataste assim?” O pianista explica: “Há uns anos, quando visitei o Museu Afro Brasileiro em São Paulo, percebi pela primeira vez o quão enviesada era a minha percepção histórica do colonialismo. A história dos outros estava ausente nos manuais escolares, e quem a contaria? Desconstruir o Colonialismo, Descolonizar o Imaginário. O Colonialismo Português em África: Mitos e Realidades aborda precisamente o lugar dos outros, dos colonizados, dos povos que foram submetidos à cruz e à espada.”
Algarve Mediterrânico. Tradição, produtos e cozinhas, de Bertílio Gomes, Maria Manuel Valagão e Vasco Célio
Tinta-da-china
“A descrição de Fernand Braudel, em O Mediterrâneo, é uma das mais belas sínteses do território mediterrânico, onde Portugal é parte integrante: ‘O Mediterrâneo corre assim da primeira oliveira avistada quando se vem do Norte aos primeiros palmares compactos que surgem com o deserto. (…) Oliveiras e palmeiras formam aí uma guarda de honra’”, lembra o pianista. “O Algarve é um território único, no Al Andaluz era conhecido como Gharb – O Ocidente”, continua Filipe Raposo, ao se referir a este livro sobre a culinária algarvia, que reúne as memórias e costumes coletados por Maria Manuel Valagão, as fotografias de Vasco Célio e os saberes e sabores do chefe Bertílio Gomes na cozinha contemporânea. “Terra do sol, do sal, do vinho, do azeite, do pão e do peixe, o Algarve preserva tradições mediterrânicas que devemos valorizar e fixar”, lê-se na apresentação desta edição da Tinta-da-china.









