O espetáculo, com encenação e dramaturgia de Bruno Bravo, diretor artístico da Primeiros Sintomas, e protagonizado por Ana Brandão, concentra-se na personagem Zerline, a figura central do quinto capítulo da novela “Os Inocentes”, escrita pelo autor austríaco do século XX, amplamente considerado pelos estudiosos como “um dos maiores modernistas de todos os tempos.”
Zerline é uma velha criada, um personagem importante na obra de Broch (1886-1951), que apresenta uma “compilação de poemas e narrativas sobre a degradação dos valores da aristocracia em decadência e da burguesia em ascensão na Alemanha, entre as guerras, prenunciando a ascensão do fascismo e do totalitarismo na Europa,” segundo nota da Primeiros Sintomas.
“O vigor literário deste quinto capítulo, que traz à tona a personagem de uma velha criada e sua história contada a um interlocutor contido e quase mudo, deu origem a um monólogo agora clássico,” narrado em uma “história de amor inesperada.”
Uma história de amor que, segundo a filósofa Hannah Arendt, “é uma das mais belas de toda a literatura” e sua “favorita,” apresentando uma mulher que é uma criada.
A peça se desenrola em um “triângulo amoroso, levemente inspirado nos personagens de Don Giovanni,” onde “o enigma de Zerline reside nas palavras proferidas por aqueles que não têm direito a elas,” conforme mencionado em comunicado da Primeiros Sintomas.
“Uma mulher que é velha e jovem, livre e submissa, vítima e algoz. O mal não está longe. Desvinculada do livro original, esta é uma história envolta em sombras, presságios e futuros sombrios,” acrescenta a companhia liderada por Bruno Bravo.
Zerline é “distante da matriz instintual para a qual a estratégia erótica se tornou uma estratégia discursiva,” afirma uma sinopse de “A Criada Zerline,” publicada pela Difel em 2002.
“Mas corpo e discurso são ambos modos, embora diferentes, de conhecimento e o exercício de Zerline consiste precisamente na laboriosa tradução do conhecimento instintual em conhecimento intelectual,” complementa a apresentação.
<p“Entre um e outro, como o único mediador, está sua linguagem, na cuja ‘rudimentariedade’ ela busca a sistematização de valores que auxiliam sua conversão de ‘ser erótico’ para ‘ser ético.’ Como resíduo dessa transformação, emerge o valor axial de seu movimento: a culpa.”
Não a culpa de Zerline, que “permanece sempre externa ao mundo que observa e narra, mas a de uma sociedade que se isenta ao aceitar assimilar e inscrever corpo e culpa.”
E é precisamente a externalidade ao sistema que confere a Zerline “a capacidade de ser tanto juíza quanto algoz,” assumindo uma posição “extrema, absoluta” tão rudimentar e limitante quanto sua linguagem.
“Ambos derivam de um valor maior e primeiro: a transferência intensa de experiências, que em sua intensidade pode apenas ser inocência,” concluiu a apresentação do livro publicado pela antiga Difel.
No CAL, “A Balada da Criada Zerline” estará em cena até 19 de outubro, com apresentações de segunda a sábado às 21:00 e aos domingos às 19:00, exceto nos dias 14 e 17 de outubro.
Com música de Sérgio Delgado e iluminação de António Vilar, a assistência de encenação é dada por estagiários João Bravo e Margarida Lopes Batista.
Escrita em 1950, “Zerlina” já foi encenada por Eunice Muñoz, em uma produção dirigida por João Perry que estreou em 1988 no Teatro da Trindade em co-produção com o Teatro Nacional D. Maria II, que também a acolheu em 1993.
Em fevereiro de 2019, o diretor João Botelho encenou o texto de Broch, estrelado por Luísa Cruz, com cenografia e figurino de Pedro Cabrita Reis. A peça foi apresentada no Centro Cultural de Belém, originando-se de um trabalho realizado na década de 1980 para o Teatro Nacional D. Maria II, por António S. Ribeiro e José Ribeiro da Fonte, baseado na tradução de Suzana Muñoz.









