Pedro Carneiro: Uma Perspectiva Inovadora

Pedro Carneiro: Uma Perspectiva Inovadora

Comecei a estudar música desde muito jovem. Ao contrário de muitas outras pessoas, cresci num ambiente que favoreceu o meu interesse pela música, com um pai músico profissional e uma mãe que se interessava pelas artes cênicas. Passei horas assistindo aos bastidores de ensaios de concertos e produções artísticas, o que despertou em mim uma paixão por essa arte.

A escolha do instrumento a estudar foi um desafio, pois sempre tive interesse por diversos tipos de instrumentos. Acabei me dedicando à percussão, que oferece uma vasta paleta de sons definida apenas pela imaginação. Minha primeira paixão se tornou a orquestra, que para mim é a manifestação máxima dessa descoberta sonora, composta por múltiplos instrumentos e pelas pessoas que os tocam, todos unidos pelo legado das partituras. A música pode ser uma arte social, e sempre me interessei pelo seu lado comunitário, que envolve a construção e a experimentação de novos sons e formas de tocar em conjunto, permitindo a interação com outros músicos na busca por novas sonoridades. Essa experiência também leva ao conhecimento e à expressão de diferentes formas de comunicar, tanto individual quanto coletivamente.

É uma pergunta interessante discutir se para alcançar o sucesso musical é necessário um talento inato ou se o trabalho árduo é suficiente. A noção de talento é frequentemente culturalmente definida, com a ideia de que algumas pessoas têm habilidades naturais em esportes, por exemplo, levando a acreditar que não é preciso esforço para desenvolver essas competências. Isso pode dar a impressão de que ser artista depende apenas de um dom natural. No entanto, ser artista requer um profundo desejo e esforço. É fundamental ter sensibilidade para os sons, resiliência, disciplina e a vontade de passar pelo processo de aprendizagem, que, no caso de um músico, implica longas horas de prática e dedicação. É necessário ter um interesse genuíno pelo processo para se tornar músico.

Minha paixão por diferentes facetas da música vem da curiosidade em entender como funciona cada elemento e, a seguir, juntá-los. Comecei a compor porque queria descobrir como é para um compositor enfrentar uma página em branco. Não é uma atividade que realizo todos os dias em horários fixos; para mim, é uma maneira de equipar-me de forma integral e entender todo o processo que me permite, quando dirijo uma orquestra, ter uma noção clara do que é tocar um instrumento, organizar um concerto ou compor uma peça. Gosto de saber o que os músicos sentem ao subir ao palco e quais são as expectativas do público. A música também é uma forma de linguagem que consegue unir pessoas de diferentes idades e backgrounds, possibilitando uma comunicação profunda, mesmo entre aqueles que não falam a mesma língua.

Sou cofundador e diretor artístico da Orquestra de Câmara Portuguesa (OCP), criada em 2007, e da Jovem Orquestra Portuguesa (JOP), que fundamos em 2010. O que nos levou a criar essas orquestras foi a falta de oportunidades para novos maestros e intérpretes em Portugal. Acreditamos que a hierarquia tradicional das orquestras poderia ser dissolvida, dando a todos os músicos a chance de compartilhar responsabilidades e ideias. Desde então, desenvolvemos diversos projetos, incluindo a Orquestra dos Navegadores, voltada para crianças, e o Notas de Contato, uma mini-orquestra para pessoas com deficiência intelectual. Nosso objetivo é inspirar músicos e artistas a transformar o mundo.

Para cativar novos públicos para a música clássica, precisamos entender que a experiência proporcionada pela orquestra, embora imaterial, é transformadora. Muitos veem a música clássica como algo destinado a um público mais velho, mas sua multidimensionalidade pode ser desafiadora para quem a ouve. Não estou entre os que defendem a simplificação da música clássica; nosso objetivo é convidar as pessoas a fazer parte dessa experiência. Recentemente, a JOP lançou um desafio a seus músicos para tocar a Sinfonia do Novo Mundo de Dvořák sem partituras, e a orquestra participa de aulas de consciência corporal diária, incluindo yoga e hip hop, além de tertúlias sobre música e outros temas relevantes.

Componho para teatro, dança e cinema, o que demonstra a riqueza da música como forma de arte, capaz de se entrelaçar com outras. A música, no entanto, tem suas limitações. Ela ocorre no presente e deve ser vivenciada do início ao fim. Por exemplo, ouvir música contemporânea pode ser desafiador; ao contrário de uma obra visual, que pode ser observada a qualquer momento, a música exige a experiência contínua. Ela também pode influenciar o contexto de uma cena, tornando-a mais leve ou intensa. A música pode criar atmosferas únicas, desde a acústica de um elevador até uma ópera que atrai amantes da arte de várias partes do mundo.

Em uma orquestra, existem várias formas de erro, como o “quiet quitting”, onde os músicos tocam sem envolvimento emocional. Às vezes, os concertos mais memoráveis são aqueles em que alguém se arrisca e falha, mas acaba inspirando os outros a sair da zona de conforto. O maestro, que não toca um instrumento, tem um papel crucial como guia, ajudando os músicos a se expressarem coletivamente. A comunicação não verbal entre o maestro e os músicos cria uma linguagem universal, permitindo que cada músico contribua ao coletivo.

Ao longo da minha carreira, recebi diversos prêmios e trabalhei com várias orquestras internacionais. O que eu desejaria agora seria um reconhecimento político pelo trabalho desenvolvido na JOP, para que não precisássemos trabalhar incessantemente em busca de apoio. Embora eu aprecie o reconhecimento que já recebi, seria importante um reconhecimento coletivo do nosso trabalho, permitindo-nos focar na nossa missão e não apenas na gestão diária e na captação de recursos.

Embora muitas pessoas tenham compositores favoritos, prefiro apreciar a vasta gama de música disponível. Gosto tanto do que o Francisco Lima da Silva compôs para a JOP quanto do Concerto para Violoncelo de Shostakovich, das obras de Brahms e das composições barrocas. Com esse conhecimento, percebemos que há música que expressa sentimentos universais, semelhante ao que encontramos no Teatro ou na Literatura. Como músico profissional, a minha missão é interpretar, com paixão, composições das quais talvez não tenha afinidade, sempre buscando um ponto de interesse.

No dia 27 de julho, apresentaremos a JOP no CCB com o talentoso violoncelista russo Pavel Gomziakov, que tocará o Concerto para Violoncelo de Shostakovich, seguido da estreia da peça “Bliss (not)” do compositor em residência, Francisco Lima da Silva, que aborda as preocupações das novas gerações. Na segunda parte, tocamos a alegre e inspiradora 2ª Sinfonia de Brahms. Será uma ótima oportunidade para apreciar música ao lado de jovens e talentosos músicos.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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