A BoCA convida à divergência para transformar a verdade

A BoCA convida à divergência para transformar a verdade

No cruzamento das artes performativas e visuais, música e cinema, surge o “Camino Irreal”, título desta nova edição da BoCA, que acontece simultaneamente em Lisboa e Madrid. Esta iniciativa visa reforçar, segundo a direção da bienal, “o eixo ibérico de criação e apresentação artística”.

Para John Romão, que dirige a programação pela última vez (tendo o curador sido nomeado diretor artístico de Évora 2027 – Capital Europeia da Cultura), este evento representa “um convite ao desvio, ao deslocamento simbólico e à possibilidade de reconfigurar o lugar do artista e do espectador” em uma “realidade atual cada vez mais distorcida”. A era da pós-verdade já impôs uma nova percepção do que considerávamos real, fazendo-nos “questionar tudo o que julgávamos adquirido”. Romão acredita que cabe aos artistas “trazer os novos imaginários capazes de contrariar isso”. Por essa razão, os diversos artistas envolvidos nesta BoCA apostam em projetos desviantes e de resistência.

O primeiro grande momento deste “desvio” é uma ópera em cinco atos criada pelo músico Dino D’Santiago, que, a convite de Romão, aceitou o desafio de desenvolver uma obra que “cruza história, cultura e a identidade multicultural portuguesa”. Intitulada Adilson, a peça segue a história de um protagonista afrodescendente, nascido em Angola e filho de pais cabo-verdianos, que vive em Portugal há mais de 40 anos sem conseguir obter a cidadania. Com libreto de Rui Catalão, a obra entrelaça essa narrativa sobre o “labirinto burocrático” que impede Adilson de ser plenamente reconhecido pelo país onde sempre viveu com outros testemunhos de injustiça social e discriminação. A estreia ocorre no dia 12 de setembro, no Centro Cultural de Belém.

Dino D’Santiago estreia-se na ópera com “Adilson”, um dos projetos mais aguardados desta edição da BoCA

Alguns dias antes, em 10 de setembro, inicia-se oficialmente a bienal com uma obra emblemática de Alberto Cortés, um dos artistas mais destacados na cena teatral espanhola atual. Após ter estado no Porto em maio, Analphabet chega ao Teatro do Bairro Alto, apresentando “a invenção de um mito queer”. Nesta peça, uma espécie de Peter Pan, “um espírito romântico”, manifesta-se a casais em crise, “não para curar, mas para revelar”.

Cortés tem ainda outro projeto previsto nesta BoCA, numa colaboração artística surpreendente com o pintor português João Gabriel. Com estreia agendada para início de outubro no Teatro de La Abadia, em Madrid, Os Rapazes da Praia Adoro utiliza a intimidade do arquivo audiovisual do cinema pornográfico dos anos 70 e 80 como referência, inspirando as pinturas de João Gabriel, unindo a poesia das palavras e dos corpos no teatro de Cortés. A peça será também apresentada em Lisboa, no Teatro do Bairro Alto, nos dias 25 e 26 de outubro, e faz parte das colaborações entre criadores portugueses e espanhóis, incluindo peças de Tânia Carvalho com Rocío Guzmán (Nossas Mãos) e de Francisco Camacho com Elena Córdoba (Uma ficção na dobra do mapa).

A pintura de João Gabriel se encontra com o teatro de Alberto Cortés em “Os Rapazes da Praia Adoro”

Enquanto o programa ainda está em definição e mais artistas aguardam divulgação, Romão destacou a estreia mundial de Coral dos Corpos sem Norte, a mais recente criação do angolano Kiluanji Kia Henda, como “uma das principais apostas desta edição”. Com estreia marcada para 20 de setembro na Sala Estúdio Valentim de Barros, o espetáculo aborda a viagem e as migrações e incluirá uma instalação impactante no MAAT, visitável entre 4 de outubro e 3 de novembro, e três ações performativas com entrada livre nos dias 5, 12 e 19 de outubro.

Um dos grandes destaques da bienal em Lisboa é a nova criação de Milo Rau em colaboração com a dramaturga e ativista francesa Servane Décle. O espetáculo O Julgamento de Pelicot, que já estreou em Viena e passou pelo Festival de Avignon, chega a Lisboa como uma “leitura performativa” que homenageia Gisèle Pelicot, mulher que sofreu mais de 200 violações sob submissão química ao longo de uma década. A peça visa devolver “a dignidade da voz a quem foi silenciado” e será apresentada no Panteão Nacional no dia 11 de outubro.

No âmbito do cinema, a BoCA, em colaboração com a Cinemateca Portuguesa e a Filmoteca Espanhola, apresenta Malamor/ Tainted Love, um ciclo onde os cineastas João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata dialogam suas obras com as de outros diretores como John Waters, Pedro Almodovar, Rainer Werner Fassbinder e Lucio Fulci. Além dessa “carta branca”, que acontecerá simultaneamente em Lisboa e Madrid, haverá duas criações inéditas: a estreia mundial da curta-metragem 13 Alfinetes, encomendada pela BoCA e dedicada à iconografia de Santo António, e a instalação fílmica Sem Antes Nem Depois, que será exibida na Sociedade Nacional de Belas Artes a partir de 11 de setembro.

Outras atrações da bienal na capital portuguesa incluem: Toda la Luz del Mediodía, do artista espanhol Julián Pacómio (a 13 e 14 de setembro); Ocean Cage, um “espetáculo imersivo e poderoso” que reflete “histórias dos habitantes de Lamalera”, focando em questões de solidariedade, coexistência econômica e ecossistemas ameaçados, assinado pelo artista visual chinês Tianzhuo Chen e o performer indonésio Siko Setyanto (19 e 20 de setembro); Yo No Tengo Nombre, uma instalação performativa na Estufa Fria do coletivo catalão El Conde de Torrefiel (de 9 a 15 de outubro); A Beginning #16161D, da dupla espanhola Aurora Bauzà & Pere Jou (a 24 e 25 de outubro); e Totentanz, de Marcos Morau e La Veronal (também a 24 e 25).

Após residências artísticas no Museu do Prado, em Madrid, Tiago Rodrigues, Patrícia Portela, Angélica Liddell e Rodrigo García escreveram e dirigiram criações inspiradas nas obras da coleção deste renomado museu europeu. O ciclo é intitulado Palavras e Gestos: para uma coleção performativa no Museu do Prado. As performances, que terão cerca de 20 minutos e serão apresentadas em quatro salas distintas, proporcionarão ao público uma experiência única num Museu do Prado à porta fechada. Para quem planeja visitar Madrid, essa rara oportunidade ocorrerá em 27 e 28 de setembro e 4 e 5 de outubro. Já está revelada a pintura que inspirou Patrícia Portela para sua peça: Os Fuzilamentos de 3 de Maio, de Francisco Goya.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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