Os líderes enfrentam a síndrome de húbris, que emerge do exercício do poder em níveis elevados, passando por três etapas. Na primeira fase, o político, sobrecarregado pela responsabilidade e pela incerteza em cumprir suas obrigações, busca a companhia e conselhos de pessoas competentes de sua confiança; na segunda, ele se cercará de yes-men, acredita em sua própria indispensabilidade e atribui seus sucessos exclusivamente a si mesmo, desejando permanecer no cargo e tomando decisões como a execução de grandes obras públicas; por fim, na terceira fase, qualquer um que se oponha a ele se torna um inimigo e um obstáculo, o que pode resultar em isolamento e na sensação de que “todos estão contra ele”.
Pessoas notáveis, como Napoleão e Mao Tsé-Tung, experienciaram essa síndrome. David Owen, neurocientista e ex-ministro das Relações Exteriores do Reino Unido, junto com Jonathan Davidson, analisou-a em diversos primeiros-ministros e presidentes, como Chamberlain, Blair e Bush; em 2018, Owen lançou o livro “Hubris – The Road to Donald Trump”. Na Espanha, Pilar Cernuda, em “El Síndrome de la Moncloa”, aborda o tema no contexto dos cinco primeiros presidentes do Governo pós-Franco.
A síndrome se manifesta através de vários sintomas, como narcisismo, autoconfiança exagerada, crença excessiva em suas próprias opiniões e desprezo pelas opiniões alheias, preocupação obsessiva com sua imagem, ações visando sua própria glória, impulsividade que leva à imprudência, irresponsabilidade em relação aos outros e à sociedade, e total (ou quase) desconexão da realidade.
Em síntese, o indivíduo percebe apenas a sua “realidade”, acredita estar sempre certo e que a História lhe dará razão, convencendo-se de que quem o contraria age por má-fé ou está equivocado e deve ser afastado.
É interessante notar como esses sintomas se acumulam em Trump. Em particular, ele demitiu os dirigentes de serviços públicos em quem não confiava (Gabriella Cantor e Hannah Sobran listam esses casos no site citizensforetics.org), tentou fazer o mesmo em entidades privadas, com Kimmel sendo o mais recente exemplo até agora, e está tentando influenciar a Reserva Federal por causa da taxa de juros que não está caindo.
Infelizmente, no caso dele, as consequências vão além dos Estados Unidos, seus efeitos são irreversíveis e se farão sentir a longo prazo. A maneira como ele tenta interferir na vida de outros países, como evidentemente nos casos de Bolsonaro no Brasil, Marine le Pen na França ou a AfD na Alemanha, é emblemática.
Como o mundo lidará com um presidente americano nas suas condições? A resposta é a mesma que se vê no sketch dos Monty Python sobre o cachorro de Hitler: muito mal.









