Sem partido ou profissão pública, estes moradores almejam liderar uma paróquia de Lisboa.

olivais em ação

O estatuto de vizinhos motivou novos grupos a candidatar-se a uma junta de freguesia em Lisboa. Estes cidadãos estão a desafiar a política local tradicional, transformando convívios em movimentos comunitários para as eleições autárquicas, que se realizam a 12 de outubro. Em Lisboa, destacam-se dois: um em Olivais e outro em São Vicente.

Sem vínculos partidários, alguns membros não têm qualquer experiência política, seguindo um modelo de democracia participativa. “Olivais em Ação” e “Em Frente, São Vicente!” elaboraram seus programas políticos com base em inquéritos realizados entre os moradores. Estão a mobilizar os vizinhos para se reunirem e discutirem os problemas locais por meio de encontros, convívios e fóruns temáticos.

Mas quem são esses grupos e que soluções propõem para o futuro de Lisboa?

“Olivais em Ação”: a luta contra o medo de falar

A iniciativa começou com passeios de bicicleta, tradição que surgiu durante a pandemia entre aqueles que defendem a mobilidade sustentável. Com o tempo, as conversas entre vizinhos evoluíram. “Discutimos como seria interessante fazer algo mais formal, mas durante as legislativas de 2021, isso não parecia viável”, relata Catarina Lopes, de 32 anos, um dos rostos do movimento “Olivais em Ação”.

Dizem contar com participantes de idades entre 18 e 96 anos, com uma diversidade de ideias e origens políticas. Catarina Lopes, Rodolfo Gonçalves, Rita Saraiva e Rita Ochoa são vizinhos que decidiram transformar conversas em ação, motivados pelo “medo de falar”.

“Percebemos que as pessoas tinham medo de se expressar”, aponta Rodolfo. “Isso é complicado: devemos ter divergências de opinião e não esconder nossa voz.”

A decisão de se unirem tornou-se mais forte quando a situação política em Olivais se complicou; três vogais da atual junta de freguesia candidataram-se como independentes, mas a presidente, Rute Lima, não os afastou, resultando na perda de confiança política por parte do Partido Socialista.

Os membros fundadores do movimento buscaram a experiência de Gonçalo Maggessi, de 45 anos, que já havia se candidatado à Junta de Freguesia em 2013 por um movimento independente. “Em nosso tempo, conseguimos dois mandatos, embora muitos olhassem para nós com ceticismo”, comenta Gonçalo.

“Identifico-me pouco com partidos políticos a nível local. Mas eles nos veem como adversários, e deveria ser o contrário: se beneficia a freguesia, é bom para todos nós.”

Gonçalo Maggessi

Após 12 anos desde sua última experiência, Gonçalo foi convencido a se unir ao novo movimento, sendo escolhido como presidente. “Nos últimos meses, fizemos um inquérito, o que é inovador para nós: estamos a desenvolver um programa baseado no feedback que coletamos nas ruas”, explica Catarina, a segunda na lista. O que muitos consideram raro, talvez não seja inédito, mas exploraremos isso depois.

As perguntas feitas aos moradores ajudaram a identificar queixas, sendo uma das principais o lixo e a limpeza de espaços verdes, em uma freguesia conhecida como “o jardim de Lisboa”.

Então, o que prometem fazer?

“Queremos implementar um cronograma público de limpeza para que as pessoas saibam quando a limpeza ocorrerá. Há áreas que ficam meses sem atenção, e precisamos de um sistema para que os moradores não sintam esse abandono.”

Além disso, defendem uma política de total transparência no orçamento da Junta de Freguesia. Isso significa não apenas apresentar números, mas também ajudar os cidadãos a interpretá-los. “Gostaríamos de ter um plano gráfico de prestação de contas para que as pessoas possam entender. Atualmente, temos que ir atrás das informações, e são apenas números.”

Essas ideias foram construídas de forma participativa e continuarão a ser implementadas.

“Estamos a moldar a cidade por meio de experimentação”, afirma Rita Ochoa.

A experimentação também envolve a análise de dados, especialmente quando se trata da presença da EMEL. Catarina reconhece que há discordâncias sobre as políticas de estacionamento implementadas pela Câmara, mas chegaram a um consenso: “Gostaríamos de reduzir o número de zonas de estacionamento e gerenciá-las em diálogo com os moradores.”

A EMEL vai além do estacionamento; o movimento também propõe a expansão da rede de bicicletas GIRA na freguesia. “Percebemos que a rede atual está muito concentrada e queremos mais informações sobre o que a Câmara está fazendo nesse aspecto.”

Por enquanto, o trabalho prossegue, sempre com um objetivo em mente: “ver o cidadão como uma fonte de valor”, diz Rita Saraiva. E Catarina resume: “Estamos aqui para ouvir todas as vozes: apoiamos uma política próxima, local, onde as pessoas se sintam à vontade para falar.”

O objetivo é ganhar. Mas, se isso não acontecer, “teremos o poder de fazer uma oposição ativa, que antes não existia”, concluem.

“Em frente, São Vicente!”: soluções construídas pela comunidade

Na Vila Sousa, uma comunidade operária na Graça, vizinhos costumavam se reunir na oficina de Luís Mateus para discutir problemas e soluções da freguesia. Um desses vizinhos, Daniel Adrião, com histórico no PS, agora se candidata à presidência da Junta de Freguesia de São Vicente como independente, liderando o movimento “Em Frente, São Vicente!”.

Formado há cerca de um ano, esse movimento surgiu dos encontros na Vila Sousa e se expandiu por toda a freguesia. “É um movimento de cidadãos com diversas orientações políticas, resultado da avaliação que muitos fazem sobre a atuação da atual Junta”, resume Daniel.

Logo nas primeiras discussões, ele optou por não se candidatar pelo PS: “Senti que não poderia pelo peso da gestão que a cidade teve nos últimos 12 anos e com a qual não me identificava.”

A solução encontrada pela comunidade foi organizar-se em prol de um objetivo comum: uma freguesia que respondesse aos desafios enfrentados pelos moradores. Assim, de Vila Sousa para as ruas de São Vicente, o movimento começou a atrair mais e mais apoiantes.

Sem ser inédito, como o movimento de Olivais, também decidiram realizar um inquérito entre os moradores, identificando as principais áreas que carecem de intervenção na freguesia, incluindo higiene urbana, habitação, mobilidade, segurança e cultura.

O “Em Frente, São Vicente!” une a voz da comunidade às soluções sugeridas por especialistas em fóruns temáticos realizados ao longo do ano. “Realizamos fóruns sobre mobilidade, ação social, criatividade, habitação e teremos um sobre higiene urbana”, explica Daniel.

A higiene urbana, um problema presente em toda a cidade, também preocupa os moradores de São Vicente. O varredor João Paulo Almeida, inclusive, criou um personagem, o “Vicente”, retratando a questão do lixo em livros infantis. “Pensei: se não consigo atingir os adultos, que tal tentar as crianças?”

O movimento também enfrenta o crescimento descontrolado das ervas. A proposta é realizar limpeza noturna e deservagem das ruas a cada três meses, aumentando as equipes de higiene urbana e cuidados com os espaços verdes.

Além do lixo, a questão da habitação é crucial. O “Em Frente, São Vicente!” sugere que todos os imóveis devolutos do Estado sejam convertidos em habitação a preços acessíveis ou em cooperativas, referindo-se ao programa “Cooperativas 1ª Habitação” da Câmara Municipal de Lisboa, que já tem projetos implementados na freguesia.

Outra preocupação é a excessiva presença de tuk-tuks, que dificultam o trânsito e condicionam o bairro turístico. A proposta é criar uma “zona tampão”, onde esses veículos de animação turística possam ser proibidos.

“Queremos que os tuk-tuks estacionem em áreas periféricas, permitindo que os turistas conheçam o bairro a pé.”

Daniel Adrião

A segurança é uma preocupação expressa pelos moradores, especialmente os comerciantes, devido ao aumento de assaltos. “Queremos reforçar o policiamento, especialmente à noite, além de mais iluminação e a possibilidade de instalar câmeras de vigilância em áreas críticas.”

Mais duas medidas incluem transformar o Quartel de Sapadores em um grande centro cultural e artístico, inspirado em exemplos internacionais, e reaver a gestão do Mercado de Sapadores, onde planejam construir um Espaço Cidadão.

Para Daniel, que vive praticamente toda a sua vida em São Vicente, o movimento representa uma mudança há muito esperada pelos cidadãos: “Este projeto nasce da cidadania, quebrando barreiras ideológicas. Quando se trata de problemas concretos, todos concordam com as soluções apresentadas.”

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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