A jovem açoriana, com os ossos malares em destaque, que não chegou a finalizar o ensino secundário e se trasladou para Lisboa sob o nome de Célia Navarro, aparece agora envelhecida sob um céu cinzento e poças de água. Quem foi Natália além da poetisa que deu vida a um universo poético repleto de tradições populares e eruditas, desde o cancioneiro medieval e barroco até o romantismo e surrealismo? Além da performer que transformou o poema em um palco de corpo, crítica e sátira? Além da ativista que enfrentou o desconforto que apenas a coragem é capaz de conhecer? Da mulher para quem a liberdade sempre foi mais do que uma palavra, mas um compromisso de vida e morte? É impossível saber. Nos resta fazer como os atores e atrizes do filme, que se submetem a um casting para encarnar a figura de Natália, e iniciar uma jornada entre Lisboa e os mitos, entre a ilha de S. Miguel e os cátaros heréticos, entre os olhos delineados a negro como os de Ava Gardner e a solidão das palavras que permanecem após a “festa das coisas possíveis”, quando “todos lhe viraram as costas e a deixaram a morrer sozinha, exceto Ramalho Eanes”, narra Rosa Coutinho Cabral, também ela açoriana, sem ocultar seu sotaque, que se aventurou a “cair nos abismos de Natália” para nos lembrar da centralidade desta escritora, ativista, resistente e política na cultura da segunda metade do século XX em Portugal, e para evidenciar que a revolução não foi de veludo e que a história não termina nas narrativas dos vencedores.
“A inteligência do Homem mede-se pela quantidade de incerteza que consegue suportar”, escreveu Schopenhauer. Sem dúvida, a inteligência superior de Natália Correia encarna esta frase, e este filme revela isso de forma eloquente, tornando-se assim um objeto também desconfortável, em uma época em que as biografias se tornaram uma mercadoria mais desejada do que a poesia, essa matéria apaixonada e sombria, capaz de ameaçar a estabilidade dos acordos de classe e gênero, das identidades políticas e religiosas, e do passado apresentado como algo consumado. A Mulher que Morreu de Pé não é um biopic, nem uma série de televisão. “É uma colagem”, explica a realizadora, “incerta”, buscando romper “ideias cristalizadas”, convocando “silêncios”, “exclusões educadas”, “vinganças”, “desencontros”.








