200 mil manifestantes e 540 presos nos tumultos agressivos na França. Comandante da polícia de Paris afirma que “Impedir tudo” foi um “insucesso”.

As autoridades francesas detiveram esta quinta-feira 540 pessoas entre os participantes do movimento ativista “Bloquear Tudo”, segundo o ministério do Interior francês. A manifestação agendada para o dia 10 de setembro, que contou com o apoio de movimentos informais de cidadãos, alguns sindicatos e partidos de esquerda, visava contestar os cortes orçamentais propostos pelo Governo Bayrou. O protesto provocou incêndios em caixotes do lixo, bloqueios de estradas e o uso de gás lacrimogéneo, em meio à crise política que o país enfrenta após a queda do Governo de François Bayrou, decorrente do chumbo da moção de confiança e da nomeação de Sébastien Lecornu como novo primeiro-ministro.

A Confédération Générale du Travail (CGT) afirmou que mais de 250 mil pessoas participaram nos protestos, enquanto o Governo francês contabilizou apenas 175 mil, com a imprensa a apontar um número médio de 200 mil. Em todo o país, houve 550 manifestações e 262 ações de bloqueio. Entre as detenções reportadas, 211 ocorreram em Paris, com 415 prisões preventivas, das quais 110 na capital.

O chefe da polícia de Paris, Laurent Nuñez, classificou a manifestação de quarta-feira como “um fracasso”, afirmando que não houve bloqueios efetivos, apesar das numerosas tentativas, incluindo tentativas de invasão da estação Gare du Nord. Outras ações continuaram durante a manhã de quinta-feira, com tentativas de bloqueio em várias universidades, incluindo a reconhecida Sciences Po, levando à intervenção policial para desocupar os locais.

Em Nantes, um manifestante foi hospitalizado após ser afetado pelo gás lacrimogéneo utilizado pela polícia, e 16 agentes da polícia ficaram levemente feridos. Em Paris, uma intervenção policial resultou inadvertidamente em um incêndio que danificou a fachada de um edifício. Em Rennes, um ônibus foi vandalizado e incendiado por manifestantes, conforme anúncio da empresa de transportes.

O Governo destacou 80 mil agentes para as ruas em todo o país (seis mil apenas em Paris) para garantir que os protestos ocorressem de forma pacífica. No entanto, confrontos foram relatados nas primeiras horas da manhã na capital, com caixotes do lixo incendiados.

Cerca de 200 detenções haviam sido registradas até às 9h30, e ao meio-dia o número subiu para 295, dos quais 171 em Paris. Ao final do dia, o Governo francês anunciou a detenção de pelo menos 473 pessoas, com 203 na área metropolitana de Paris, e 175.000 manifestantes participaram em quase mil atos e concentrações em todo o país.

Na manhã de quarta-feira, cerca de cem jovens bloquearam uma estrada no 18.º arrondissement de Paris, levando a polícia a usar gás lacrimogéneo. Em Porte de Bagnolet, várias pessoas foram detidas por tentarem interromper a circulação, enquanto em Porte de Montreuil ocorriam bloqueios com a intervenção de cerca de 30 motos da polícia.

Durante a tarde, manifestantes incendiaram um edifício na zona de comércio de Châtelet em Paris, lançando pedras contra a polícia. Em Toulouse, ocorreram protestos junto a escolas e universidades, com cerca de 400 pessoas reunidas em frente à Câmara Municipal, resultando em 26 detenções até às 10h.

Em Marselha, a manifestação em direção à estação Saint-Charles enfrentou cordões de policiais, com o uso de gás lacrimogéneo pelas autoridades. Também foram registrados bloqueios em ruas e estradas de Lille.

Os protestos surgiram inicialmente em resposta ao pacote de cortes orçamentais proposto pelo ex-primeiro-ministro François Bayrou para 2026, que visava reduzir a dívida pública e cumprir compromissos orçamentais com a UE, com um plano de quase 44 mil milhões de euros em cortes. Contudo, após a queda de Bayrou na Assembleia Nacional com o chumbo de uma moção de confiança, Sébastien Lecornu assumiu como novo chefe do Governo. Lecornu, de 39 anos e sendo o quarto primeiro-ministro nomeado por Emmanuel Macron em apenas 12 meses, é um aliado próximo de Macron e ex-ministro da Defesa.

O novo primeiro-ministro não revelou quais medidas pretende implementar no próximo projeto orçamental, que deve ser apresentado antes de meados de outubro, mas prometeu “mudanças profundas” para tirar a França da crise. O movimento “Vamos bloquear tudo” é semelhante ao dos “coletes amarelos” de 2018, destacando questões de desigualdade e insatisfação com Macron.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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