Explorar as cinco salas do nível O do Museu de Arte Contemporânea do CCB, que até setembro acolhem as obras de José Pedro Croft, oferece ao visitante um antídoto à rapidez do cotidiano. Gravuras, desenhos e esculturas estão dispostas de maneira meticulosa e geométrica, como se formassem uma grande instalação, devolvendo à arte a capacidade, cada vez mais rara, de suspender o tempo.
Entre “o metal, o vidro, os espelhos, a linha, a cor, a memória gráfica, as sobreposições, a instabilidade”, como descreve o curador Luiz Camillo Osorio, o olhar é convidado a um fluxo visual ininterrupto de contemplação e questionamento. Essa dinâmica deriva de uma “relação dialética entre repetição e diferença”, especialmente perceptível na “maneira como o artista trabalha – e reelabora – as placas de cobre [em suas esculturas] e interfere constantemente nas gravuras” apresentadas. Osorio refere-se a isso como um “jogo serial” que gera “microdiferenças”, levando o espectador a parar e observar como esses deslocamentos criam intensas energias espaciais. Por isso, a diretora do MAC/CCB, Nuria Enguita, não hesita em afirmar que esta é uma exposição “para ver, e para voltar e ver de novo”.
Reflexos, Enclaves, Desvios resulta, segundo Croft, de “um trabalho de grande depuração” que, desde 2003 até agora, tem caracterizado a sua obra. É uma exposição fruto de meses de trabalho, resultante das “múltiplas visitas do meu curador e amigo Luiz Camillo ao meu ateliê” e da generosidade e competência do anfitrião, neste caso, o MAC/CCB. O artista expressa sua satisfação ao classificar a exposição como “uma boa exposição”.
As salas que abrigam as 170 obras expostas seguem uma linguagem visual de forte caráter arquitetônico, ao mesmo tempo orgânica e emocional. Croft destaca, durante uma visita com jornalistas, que “o papel tem memória do gesto”, evidenciando o papel central que a gravura ocupa em seu trabalho. Esse diálogo geométrico entre o metal, o vidro e os espelhos com as gravuras e o “fazer gráfico” propõe um desafio ao visitante, que frequentemente se vê obrigado a reposicionar-se no espaço para estabelecer uma relação plena com as obras, conjugando a tridimensionalidade da escultura com a bidimensionalidade da gravura.
A posição do corpo no espaço permite uma relação com a escala tão apreciada na arquitetura, ampliada aqui em um emocionante jogo de espelhos e percepções. A interação entre as obras cria uma constante interrogação sobre o equilíbrio das formas, gerando no espectador uma sensação de desconexão e desequilíbrio. Muitas vezes, “mudar uma cor, uma linha ou uma escala” é necessário para perturbar a geometria das coisas. No entanto, Croft reflete que “a arte serve para humanizar, mais do que para vivermos com objetos imaculados”.
Formado em pintura pela ESBAL, Croft estudou também arquitetura e escultura com João Cutileiro. Durante os anos 1980, o artista, nascido no Porto em 1957, produziu obras figurativas, mas logo começou a justapor e sobrepor elementos de pedra. No início da década seguinte, passou a explorar o vidro, mobiliário e utensílios diversos, mas sempre mantinha um traço constante: “sempre ia desenhando”.
Ao introduzir o vidro transparente, o espelho e o bronze polido, seu interesse pela relação entre peso e leveza, opacidade e transparência, se torna mais evidente. Apesar das constantes experimentações, Croft garante que isso nunca comprometeu a coerência formal que o solidifica como uma referência na arte contemporânea portuguesa. Esta exposição destaca não apenas suas contribuições passadas, mas também o vigor de um artista que continua a experimentar, como observa o curador, fazendo “uma apropriação constante de gestos e elementos plásticos reposicionados por um mundo em rápida transformação, com o qual mantém uma relação de tensão e conflito”.









