Ana Pereira

Ana Pereira


A história da minha mãe sempre me impressionou. Impressionou-me, porque era a história dela e porque queria que fosse minha. Tenho uma conexão imensa com esta história, mas a minha mãe nunca me deixou trabalhar o tema. Finalmente, houve um momento em que ela disse: ‘está bem, podes usar estes objetos’. Depois, já não eram só os objetos, também podia usar uma parte da história e o seu nome. Foi assim aos bocadinhos, um processo longuíssimo que só se resolveu em 2017. A partir daí contactei a Joana Ferreira, da SoproFilmes. Mas, até ao último minuto não sabia se a minha mãe nos ia dar a entrevista. E isso era muito importante, porque o filme vive da sua força.

Houve uma investigação imensa. Este é um tema muito estudado em Espanha. Há filmes sobre estas pessoas que regressaram ao país depois desse grande exílio de 20 anos. Filmes com entrevistas, documentários clássicos, formais. Existem inúmeros livros sobre a Guerra Civil e sobre estas crianças. Muitas delas, já em adultas, também escreveram sobre isto. Tenho um imenso arquivo e investigação sobre este assunto.

Não me surpreende, porque sou filha dela. Penso que esta foi a maneira como a minha mãe conseguiu gerir as emoções e o trauma de ter de sair do seu país aos quatro anos, sem os pais. Num outro documentário sobre estas pessoas há uma senhora que está, ainda no fim da vida, profundamente revoltada com o que lhe aconteceu. Mas, em termos gerais, estas pessoas superaram o trauma. A minha mãe sempre nos incutiu essa superação. Porém, obviamente, é um trauma e eu sofro de uma coisa que se chama pós-trauma: a ideia de que as pessoas que não sofreram diretamente uma vivência, tendo uma relação biológica ou não entre si, sentem uma empatia que as leva a sofrer a dor do outro; eu sinto essa dor. Por outro lado, não nos podemos esquecer que isto era uma bolha espanhola na ex-União Soviética. Estas crianças só aprenderam a falar russo aos dez anos, tendo passado seis anos sempre a falar espanhol. Quando a II Guerra Mundial começou, foram os primeiros a ser evacuados. A minha mãe e a minha tia foram protegidas, acarinhadas e estavam sempre ocupadas. Ter o tempo todo preenchido, como a minha mãe diz, psicológica e pedagogicamente, foi essencial para o seu desenvolvimento. Não havia tempo para se sentir o vazio da saudade. Para os meus avós deve ter sido muito pior. Nunca tive a oportunidade de falar com eles sobre isso, mas acho que deve ter sido um choque profundo ficarem sem as filhas. Eles pensavam que iam ser meses, como se fossem umas férias. Ninguém esperava que fossem 20 anos, sem contacto.

Obviamente. O filme não é só a pergunta ¿De qué casa eres? feita a estas pessoas, é para todos nós. A quem é que pertencemos enquanto pessoas, enquanto seres neste planeta? É também sobre a identidade, em vários aspectos e em vários níveis. A minha mãe, que está em Portugal há 67 anos, tem um orgulho profundo em ser portuguesa. Mas há uma barreira imensa colocada pelo sotaque. Embora fale e escreva um português corretíssimo, sem erros, a minha mãe mantém o sotaque espanhol, que também não é propriamente o de Espanha. As pessoas em Portugal continuam a dizer-lhe “Ah, mas a senhora não é portuguesa, pois não?”… eu fico chocadíssima, porque ela tem um orgulho tão grande nisso. Por muitas pertenças que tenhamos com outros universos geográficos, mentais, culturais, o nacionalismo, sem dúvida, também vem do sotaque. Portanto, quem não fala um português de Portugal correto é posto de lado.

O filme é sobre a minha mãe, mas também é sobre mim. Apresento-me como um reenactment, enquanto a pessoa que está a performatizar acontecimentos que a minha mãe viveu. Não sou só eu enquanto realizadora, mas enquanto a artista que performatiza.

Sim, é uma parte muito grande do meu trabalho, e foi também o tema da minha tese de doutoramento. Nós performatizamos a vida através de objetos e eles falam por nós. Os objetos são muito importantes no nosso universo, contam histórias em diversos níveis, não só semióticos, culturais, mas também emocionais. Projetam desejos, indicam como cada um de nós quer ser interpretado pela outra pessoa que nos está a ler. Não é só o body language, é também o object language, o objeto que fala. Nesse sentido é muito importante que o filme fale também dos objetos. São memórias, assuntos antropológicos.

Sim, não podemos separar objetos da memória. Eles introduzem essa dimensão da memória onde está baseada toda a antropologia, a nossa cultura. Quando comunicamos, estamos também a comunicar um substrato de memória.

São personagens que contam a história, com uma dimensão que pode ser universal, mas que também podem ser só apontamentos culturais de uma região. Neste caso, são transversais, alguns fazem parte do nosso imaginário coletivo enquanto portugueses, como por exemplo o artesanato. É por isso que são tão importantes.

Sendo este o meu primeiro filme, percebi uma coisa maravilhosa sobre o cinema: ele tem essa dimensão total, tem o movimento, a compressão. Falamos dos 90 anos de história da minha mãe numa hora e poucos minutos. Depois, pode ser disseminado de uma forma facílima como pegar em qualquer ecrã, desde o pequenino ao grande, e ter ali aquele objeto, aquele acesso. Estou completamente deslumbrada. Apesar de parecer tão simples, foi de uma dificuldade extraordinária. Como é que se constroem vários universos? A história da minha mãe, a minha e aquela dimensão muito mais artística? Isso foi um desafio.

O filme tem uma coisa essencial que é a dimensão do tempo que passa. Por isso, decorre entre duas vindimas. Essa dimensão cronológica do tempo, que não é só a história da minha mãe, dos objetos que contam outro tempo, das memórias da minha infância ou da minha idade adulta, mas também uma ideia de ciclo. A noção de que temos não só os dias a passar, o amanhecer e o entardecer, o inverno e o verão, mas também a dimensão da própria natureza que constrói um discurso. Uma segunda apanha das uvas e mais um ano que passa, sublinhando a ideia de que a terra também nos dá coisas. O filme tem também, por isso, uma dimensão ecológica.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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