Provavelmente, já mencionei que meus pais eram grandes apreciadores de fado; amigos próximos de Lucília do Carmo e padrinhos do seu filho Carlos, eram frequentadores assíduos do O Faia, estabelecimento pertencente a essa ilustre família, onde grandes artistas cantavam e se apresentavam.
Era uma época em que as casas de fado eram dedicadas a verdadeiros aficionados, permanecendo abertas enquanto houvesse público. Quando restava apenas um pequeno grupo de entusiastas, clientes e artistas sentavam-se à mesma mesa para ouvir fados que ainda estavam sendo ensaiados. Os mestres, músicos e habitués (que não raramente eram também autores de letras) compartilhavam suas opiniões. Formava-se, assim, uma comunidade fadista, sem ídolos nem prima-donas, uma verdadeira família à qual era um prazer pertencer. E, se era assim n’O Faia, sucedia o mesmo na Parreirinha de Alfama, no Senhor Vinho (onde o “forno” era um espaço de brainstorming, como se diz atualmente) e em muitos outros locais.
Depois de ter caído em desuso durante o período pós-revolucionário, o fado retornou à moda com vozes renomadas (Camané, Mariza, Aldina, Ana Moura, Carminho ou Ricardo Ribeiro) e foi declarado Património Imaterial da Humanidade. Isso atraiu um público global maior, levando o fado a sair dos espaços intimistas para as grandes salas de concerto, e do petit-comité para vastas audiências.
No entanto, com o crescimento desenfreado do turismo em Lisboa, os locais onde se podia ouvir fado ao vivo tornaram-se quase exclusivamente destinados a turistas, com jantares obrigatórios a preços elevados, muitas vezes encerrando antes da meia-noite por não se querer pagar horas extras aos funcionários. Não é exagero: já estive em situações em que, mesmo com as bebidas ainda na mesa, um empregado veio retirar os pratos e a toalha da mesa, sinalizando que era hora de ir embora.
Gestores, poetas, fadistas e músicos – provavelmente cansados do incessante clique das câmeras de telemóvel e do ruído dos talheres durante as performances – criaram espaços verdadeiramente acolhedores em bairros emblemáticos da cidade, onde hoje circulam fadistas e compositores extremamente talentosos, muitos dos quais são herdeiros de famílias do fado.
João Cardim, empresário, e Joana Amendoeira, fadista, nos apresentam, por exemplo, no Fama de Alfama, um conjunto de novos talentos (foi lá que ouvi pela primeira vez José Geadas e Soraia Cardoso e também o genial Mike 11 tocar); e, o que é ainda mais bonito, mantêm a porta aberta até tarde, permitindo que aqueles que se apresentam e que aparecem ao fim da noite (letristas, músicos, fadistas ou apenas aficionados) se reúnam para trocar canções, pedir opiniões sinceras, aprimorar versões, e solicitar poemas para composições que alguém criou.
São os bons novos tempos – e já eram bem-vindos.









