Praça Martim Moniz: Um Cenário para o Cinema. E foi: muitos filmes.

Salão Lisboa

Falando em detalhes, o fio condutor que permeia estes episódios é fascinante. No capítulo anterior, também sobre Martim Moniz, destaquei um dos títulos mais extraordinários sobre Lisboa: Uma Entrevista com o Arco do Marquês de Alegrete, no livro A Nossa Lisboa, de Matos Sequeira e Luís Pastor de Macedo, publicado em 1945. Os autores eram especialistas em uma ciência nobre, a olisipografia, e o título refletia a realidade. A entrevista com o arco e as palavras do arco realmente aconteceram.

Como foi mencionado – pois parte dessa entrevista foi discutida aqui – os dois olisipógrafos fizeram perguntas ao venerável arco, sob o qual passava o trânsito do Martim Moniz, caminhões, vendedores com bilhas de água e até elétricos. As palavras do entrevistado foram tocantes, mais do que podíamos imaginar para pedras magoadas. No ano seguinte, em 1946, o Arco do Marquês de Alegrete foi demolido.

Volto a insistir para destacar a importância da busca por detalhes em Lisboa. A história da cidade e a diversidade de seus habitantes (retirando mais uma vez de José Cardoso Pires, que se descrevia como “escritor da comarca de Lisboa”) fazem com que, uma vez capturado um detalhe, logo outro se revele.

O testemunho do Arco do Marquês de Alegrete, que viu marinheiros gritando boiar durante a passagem para as naus no Tejo e sobreviveu ao terremoto, evocou mais o passado, como é típico dos antigos. Porém, também expressou admiração por um novo vizinho.

– Tenho até amizade pelo Salão Lisboa. É novinho; mas me atrai gente; me anima. E eu gosto de ver muito povo.

Assim, encontramos uma coincidência, outro fio condutor destes episódios da série Fala-me de Ti, Lisboa, além dos detalhes. O testemunho do Arco fazia referência ao primeiro cinema construído em Lisboa, feito de raiz para a exibição de filmes. Eles coexistiam; com paredes em comum, aquele Arco, que viveu tanta história, parte até da Cerca Fernandina, e o Salão Lisboa, conhecido como Piolho, onde a plateia clamava pelo cowboy Tom Mix. Estranha cumplicidade.

Quem diria que naquele espaço, ainda perfumado por hortas, havia uma conexão, que veremos se repetir, com o cinema, essa revolução moderna que fascinava o mundo inteiro…

Mas apenas se espanta quem não conhece a praça mais hollywoodiana de Lisboa. Martim Moniz é um cenário natural extraordinário, tão evocativo para um filme quanto um táxi nova-iorquino com um motorista que conversa com o espelho. Ou, substituindo o Martim entalado entre portas por uma Carmen, operária de uma fábrica de tabaco em Sevilha, e a praça se tornaria uma ópera perfeita. O Martim Moniz foi feito para dar espetáculo.

Meu amigo Nuno Saraiva, artista desta série da Mensagem de Lisboa, mesmo sabendo que este episódio não abordava o regicídio de 1908, incluiu Manuel Buíça descendo as Escadinhas da Saúde. Aquela era sua residência, e ele descia com uma barba e uma espingarda meio escondida, na madrugada que pretendia assassinar o rei, o príncipe herdeiro e o regime.

Não me recordo de ter visto essa cena em filmes e séries sobre o regicídio. Que pena. Perdemos a oportunidade de capturar com a câmera a praça, seguindo as costas de um homem descendo as escadinhas. E, mudando o ângulo, a câmera focaria, de baixo para cima, um homem e seu destino, emoldurados pelos gloriosos cimos da Graça e do Castelo. As Escadinhas da Saúde estavam lá, e o momento trágico e histórico também. Mas, como sabemos, os detalhes muitas vezes passam despercebidos. Para isso que a Mensagem de Lisboa existe.

Inaugurado alguns anos após a imagem de Buíça, que nunca foi filmada, o Salão Lisboa ergueu-se entre as Escadinhas da Saúde e o Arco do Marquês de Alegrete. É uma cena repetitiva na praça, onde tudo se junta, uns contra os outros.

Além das matinées, o Salão Lisboa também contribuiu para o cinema lisboeta. A sua contribuição mais significativa ocorreu quando o diretor Fernando Lopes decidiu não filmar o Salão Lisboa, mas transformá-lo em um dos protagonistas – ele e o Martim Moniz em geral – de uma ausência.

Vamos contar esse detalhe, ou melhor, o detalhe que não apareceu e, por isso mesmo, é ainda mais eficaz. Já que falamos de cinema, citemos Manoel de Oliveira: “Há coisas que são abissais e os abismos não se podem filmar, sugerem-se.” Não é sem razão que John Ford e Raoul Walsh, dois renomados e grandes diretores, usaram tapa-olhos. Ver e não ver se complementam.

Imaginem aquele jovem, Belarmino Fragoso, no final da década de 1930. Quando passava pela porta da esquadra da PSP no Martim Moniz, ele corria. Era proibido andar descalço. Adolescente, com sapatos rotos, engraxava os sapatos de quem ia à frente e mal aparecia um polícia, voltava a correr com a caixa às costas…

Numa matinée no Piolho, como era chamado o Salão Lisboa, um amigo desafiou Belarmino a aprender a lutar, ali ao lado, no ginásio do Grupo Desportivo da Mouraria (GDM). Estudar boxe é útil para quem passou a vida fugindo.

Belarmino bateu à porta do ginásio, que naquela época ficava na rua do Capelão, no início dos anos 50. Décadas depois, à porta do Ribadouro, ao lado do Parque Mayer, Fernando Lopes encontrou um boxeador em decadência, sonhando em relançar a carreira…

O diretor conseguiu convencer o Cunha Telles a produzir um documentário meio fictício… Que a sorte tenha favorecido Augusto Cabrita, permitindo-lhe registrar cada aspecto derrotado e saber encontrar a resiliência mesmo nos olhos… Que houvesse um Hot Club para a música em sombras… Que tudo isso ocorreu em 1964, quando se filmou Belarmino, é verdade.

É mais uma manifestação desse peculiar fenômeno secular de Martim Moniz instigar seus habitantes a se superarem. É um dom. Baptista-Bastos, que nunca aparece no filme, mas cuja voz e tosse são ouvidas, questiona: “Quer dizer… Tens medo de perder.” Uma pergunta válida. Mas mais impactante é a resposta de Belarmino: “Não, não… tenho medo de fazer má figura.”

O filme completou 60 anos e ainda é celebrado na prestigiada revista New Yorker, com um texto extenso, seco e admirado. Logo nas cenas iniciais, Belarmino (ator e indivíduo) abre uma daquelas janelas de um prédio virado para a praça, e adivinha-se, mas não se vê: embaixo, um vazio Martim Moniz, 1964.

O olhar do boxeador se eleva para a colina do Castelo, que sempre foi bela e ainda mais à contraluz da manhã. Mas o que está mais evidente, e que o olhar (tanto de Belarmino quanto o nosso) nunca, nunca desce, é uma praça recém-arrasada, um parque imundo de asfalto. Um lugar desapossado da igreja do Socorro, das casas medievais, do Teatro Apolo, do Arco do Marquês de Alegrete… Solitária, a capela da Nossa Senhora da Saúde e, ao redor, nada.

Já mencionamos isso em um episódio anterior, lembram-se? Da foto da pequena igrejinha, tirada do alto de um guindaste, contemporânea do filme e já naquele estado, solitária em uma praça em construção. E mostramos outra foto do início do século passado. Uma alusão cinematográfica: a capela da Nossa Senhora da Saúde, conferindo ao Martim Moniz ares de estúdio de cinema. Uma imagem antiga, como em um filme de Sergio Leone com pistoleiros mexicanos, personagens solitários que trazem o ar do tempo: “Atores secundários deambulam pelo adro, todos homens de chapéu de aba, até o vendedor ambulante.”