José Cardoso Pires, o autor lisboeta

José Cardoso Pires, o autor lisboeta

Após a publicação da biografia de José Cardoso Pires, Integrado Marginal, frequentemente me questionaram se gostaria de tê-lo conhecido.

Ouviste, José? Estive contigo por mais de três anos, sendo meu peso, minha sombra, meu companheiro, e as pessoas me perguntam se gostaria de tê-lo conhecido. Perdoa-lhes a falta de imaginação, assim como eu perdoei a preguiça, ámen. O que eu poderia dizer a eles, José? (perdoa-me por não poder chamá-lo de Zé, como faziam Edite, suas filhas e seus melhores amigos. Entre as poucas características que temos em comum, o pudor é a mais importante, a mais sensível. José. Está bem assim.)

Então, eu não gostaria de tê-lo conhecido? Claro que gostaria. Um copo no British, uma conversa no chafariz do Procópio às duas ou três da manhã, uma viagem até à Outra Banda com eu ao volante, um almoço na praia, você a remover as espinhas com uma delicadeza que emocionava seu editor, ambos à noite no apartamento da Caparica, uma garrafa de whiskey e o mar negro a nos vigiar, aguardando sua frase, seu golpe.

Então, eu não te conheci? Se eu não te conhecesse, você não estaria aqui agora, sentado à beira da minha cama, fumando um cigarro atrás do outro, espiando por cima do meu ombro, com sua tosse de fantasma, o único som que sua mudez de morto permite, suas mãos rudes e velhas, com veias salientes, tão cuidadosas ao colher palavras com um único corte, um corte limpo.

Se eu não te conhecesse, diria que você está se comportando como um agente da PIDE. Tenho que pedir desculpas novamente. Não há ofensa maior para você, bem sei. Mas o que posso fazer? Li todos os relatórios que você escreveu sobre cada uma das suas personagens – Tomás da Palma Bravo, Simas Anjo, Maria das Mercês, a rapariga dos fósforos, aquele rapazinho de um conto já esquecido, Alexandra Alpha, o cego d’Os Caminheiros, Covas – e imagino você a observá-las noite e dia, seguindo seus passos discretamente, encostando o ouvido ao peito para ouvir sua respiração, os batimentos cardíacos, a música interior (ouvidinho, é preciso ouvidinho, como você disse ao mestre Aquilino), sem que elas notem.

Pronto, um anti-PIDE. Melhor assim? Um agente a serviço da humanidade. Eles vigiavam para denunciar, você vigiava para revelar.

E você revelava tão bem, era tão bom na arte do relatório humano, que até as mentes mais esclarecidas, progressistas e, no futuro, laureadas deste país, te confundiam com esses seres feitos do barro das suas palavras, acusando-o de simpatia excessiva por algumas das suas criações. Eles nunca se lembrariam de moldar um Tomás da Palma Bravo (esse grande cabrão misógino) completo e humano, a não ser para aplicar vergastadas morais. Eles nunca teriam coragem de fazer de um polícia o herói de um romance.

Ou, talvez, não soubessem. Faltava-lhes a mão, o ouvido, o coração. Faltava-lhes ser como você, José. E, veja como as coisas são, eu é que não te conheci. Já que você está aqui, envolto na fumaça do seu cigarro, feito da mesma matéria, nuvem e passado, deixe-me dizer-lhe que, se fosse hoje, com sua mania de não fazer de suas personagens modelos edificantes, com esse seu jeito de quem não liga para a literatura das boas intenções, estaria em apuros (prometo que é a última vez que peço desculpas aqui).

Não sei que informações te chegam aí no lugar onde agora habitas, se há jornais ou se tudo funciona à base de telepatia cósmica. Para seu bem, espero que não haja redes sociais ou, se houver, que, além de mudo, você seja cego e surdo. Tout comprendre, c’est tout pardonner, dizia Madame de Stäel (e lá estou eu de volta aos perdões). Aqui está outra máxima: aquilo que ignoramos não nos torna infelizes.

Tudo isso para te dizer que, quando publiquei a biografia, a sua biografia, José, alguns espíritos mais sensíveis (sabe, os filhos da puta são sempre muito sensíveis, não sabe?) não gostaram de que eu dissesse que você era “o” escritor de Lisboa.

Heresia! Pelo que percebi, você seria culpado de não ter escrito o Ulisses de Lisboa, de não ter feito da sua cidade o que Dickens fez de Londres ou Victor Hugo de Paris. E, no entanto, Lisboa, que nem sempre é o cenário das suas histórias, pertence a você e você pertence à cidade. Porque você se entregou a ela, porque a escolheu e repudiou a terrinha onde, por acaso, nasceu.

Procurou até o fim, até os últimos dias, essa música da cidade, a respiração mecânica, humana e total, a fala das suas gentes. Sei que você está aqui, José, ainda ouço o dedo na pedra do isqueiro, a chama queimando o cigarro. Sinto que ainda me ouve, porque sempre foi isso que fez: ouvir.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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