Três companheiros e um painel luminoso

Três companheiros e um painel luminoso


No teatro contemporâneo, apenas algumas peças conseguem aliar popularidade com o reconhecimento da crítica. Menos ainda são aquelas que, embora tenham sido escritas recentemente, podem ser consideradas “clássicos”. Arte, a obra emblemática da autora francesa Yasmina Reza, integra esse seleto grupo de textos teatrais que continuam a conquistar plateias, prêmios e a crítica, mesmo depois de mais de 30 anos desde sua estreia.

Para corroborar essa afirmação, especialmente para uma nova geração que não teve a oportunidade de ver essa obra no palco – em Portugal, Arte foi encenada por António Feio em 1998 e 2003, e posteriormente em 2016 por Adriano Luz e Carla de Sá – a Força de Produção decidiu apresentar, nesta nova temporada, o clássico de Yasmina Reza. Com uma nova tradução de Ana Sampaio, António Pires dirige Cristóvão Campos, Nuno Lopes e Rui Melo, em um espetáculo que o encenador descreve como “uma comédia sobre a empatia em nossos dias”.

Em 1998, quando a peça estreou em Portugal, o foco estava nas questões de gosto e nas polêmicas em torno da arte contemporânea. O quadro em branco, como observa Pires, era considerado “uma espécie de provocação”. Atualmente, o texto é visto como uma reflexão sobre a forma como nos relacionamos e a falta de empatia que, em função do individualismo e do isolamento promovido pelas redes sociais, temos nas nossas relações interpessoais. Em suma, Arte aborda a história de três homens que, amigos há 20 anos, “já não se ouvem uns aos outros” e parecem à beira de descobrir que a amizade pode estar chegando ao fim.

Quando Marco (Nuno Lopes) anuncia ao público que seu amigo Sérgio (Rui Melo) comprou uma tela totalmente branca por 120 mil euros, intensos momentos de tensão se desenham no ar.

De frente para a obra, Marco ri de Sérgio, mas a situação rapidamente se transforma em um conflito, ainda sutil, quando ele descreve a obra como “uma grande merda”. Ofendido, Sérgio busca a validação de um terceiro amigo, Ivo (Cristóvão Campos), que também está vulnerável em suas opiniões e enfrenta suas próprias falhas pessoais e profissionais.

Quando se reúnem novamente na casa de Sérgio, o valor da obra de arte se confronta com o valor da amizade, trazendo à tona incômodos e ressentimentos que permeiam a relação entre os três homens. A grande questão que se coloca é: será que, após tudo o que foi dito, a amizade ainda conseguirá resistir?

Toda a escalada de conflitos, que culmina em um gesto radical e surpreendente, é tratada com uma notável sutileza típica da comédia. António Pires expressa seu “enorme prazer e divertimento” ao trabalhar um texto que é “uma lição de comédia”. Com “três atores de grande talento, que têm sua própria opinião, basta deixá-los dominar a cena”.

Com a estreia agendada para o dia 10, a brilhante comédia de Yasmina Reza está prestes a conquistar novas gerações de espectadores, provando que os clássicos, por sua atemporalidade, nunca envelhecem.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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