A ilustração portuguesa vive um momento de intensa criatividade. Com editoras, publicações digitais e projetos de autor, uma nova geração de ilustradores destaca-se com linguagens distintas, mesclando técnicas tradicionais e inovação digital. Cinara Saiônara, Gabriela Pedro, Inês Viegas Oliveira e Vanessa Namora Caeiro são quatro nomes a ter em conta no mundo da ilustração.
Cinara construiu um percurso diversificado entre o cinema e a ilustração. Com formação em jornalismo e um mestrado em comunicação audiovisual, encontrou na ilustração sua melhor forma de expressão. “Sou terrível com as palavras, expresso-me melhor através das imagens”, diz ela. O interesse pela ilustração começou como um hobby, mas logo se transformou em profissão. Atualmente, é ilustradora em tempo integral e também atua no cinema, em departamentos de arte e cenografia.
Com quatro livros infantis publicados, Cinara percebe que a edição desses títulos foi um ponto de viragem: “Foi quando senti uma responsabilidade maior, a necessidade de fazer coisas com propósito.” Na ilustração, ela encontra espaço para experimentar e errar: “Permito-me errar mais, sinto menos pressão.”
Sua prática oscila entre o manual e o digital, escolhendo o meio de acordo com o projeto. “No papel demoro muito mais a chegar ao resultado final; no computador, é mais fácil voltar atrás e corrigir. O tempo mede-se de forma diferente no digital; esgota-se mais quando estou usando papel.” Entre essas duas linguagens, continua a explorar o desenho como uma forma de compreender e organizar o mundo que traz “na cabeça”.
Se pensarmos no Natal como um momento familiar e sonhador, a ilustração de Cinara conecta-se naturalmente a esse imaginário. Criada para a PIM! Mostra de Ilustração Para Imaginar o Mundo, em 2023, a peça nasceu de um gesto íntimo – “É um autorretrato com o meu filho, feito a propósito do meu sonho de criar uma biblioteca em casa”, explica. A imagem evoca exatamente aquilo que associamos à época natalícia – a imaginação e a força dos afetos.
Apesar de se ter formado em desenho, Gabriela demorou um tempo a se assumir como ilustradora, o que aconteceu efetivamente após começar a trabalhar no jornal Público, há quatro anos. Lembra que, mesmo após ilustrar o livro O Efeito Bola de Menta, de Inês Barata Raposo, continuava “muito insegura e com muito a aprender”.
Atualmente, trabalha principalmente em ilustração editorial, embora reconheça que seu estilo “inclina-se mais para a ilustração infantil”, que é a área que mais a entusiasma e onde deseja crescer. “No futuro, seria incrível ilustrar livros para crianças de forma mais regular.”
Paralelamente, tem desenvolvido projetos para outros jornais, manuais escolares e para o Teatro LU.CA, onde também experimentou a animação. Sua técnica começa no preto: tinta-da-china, lápis escuro, formas construídas em papel e montadas digitalmente mais tarde. “Sou péssima com cor”, brinca, explicando que prefere o gesto, a textura e “a luta até chegar ao produto final”, sempre com uma folha à frente e o traço a criar mundos.
No hemisfério Norte, o Natal chega sempre vestido de inverno – e é nessa atmosfera fria e acolhedora que Gabriela encontra inspiração. “Nesta ilustração, que resultou de um trabalho para o Público, vê-se uma menina a desenhar uma montanha e um rapazinho a esquiar”, explica. A cena, marcada pela neve e pela brincadeira, recupera um imaginário típico da época natalina, onde o frio, a criatividade e a fantasia se entrelaçam.
Inês chegou aos livros de maneira inesperada: formou-se em Física, iniciou um mestrado em Matemática e só depois encontrou na ilustração o espaço onde realmente queria estar. “Considero-me ilustradora desde que lancei o primeiro livro, em 2022”, conta Inês. O Duelo, criado no âmbito do projeto europeu Every Story Matters, dedicado à promoção de livros inclusivos, foi publicado pela Planeta Tangerina e recebeu o Prémio Nacional de Ilustração 2023.
Mais do que “ilustrar por encomenda”, o que a inspira é pensar no livro como um objeto completo. “O que gosto de fazer é isso – pensar em histórias e no livro como um todo.” Para Inês, o diálogo entre texto e imagem é primordial, seja ao trabalhar com palavras de outros ou ao criar as suas próprias.
Além disso, dá aulas e coordena a revista literária Limoeiro Real, da qual é editora. Entre o ensino, a edição e a criação, mantém-se fiel ao que mais a motiva: trabalhar onde as imagens se encontram com as palavras.
Sem ter sido pensada especificamente para o Natal, a ilustração de Inês evoca o espírito da época. Representa um momento de celebração, retirado de seu novo livro, Contas-me?, onde várias personagens se reúnem. “É o momento em que há uma festa e as pessoas estão juntas, e acho que o Natal para mim é isso: a reunião das pessoas”, explica. Uma imagem que ecoa o essencial desta quadra – o encontro e a partilha.
Licenciada em Pintura, Vanessa cedo percebeu que a vida de artista não era linear e acabou por encontrar um novo território no Centro de Investigação de Arte e Multimédia, onde se aproximou do cinema de animação. “O desenho é sempre a base de tudo”, explica.
A partir daí, foi escolhida por uma produtora e começou a trabalhar em animação para a RTP, uma experiência que lhe abriu portas para a televisão e mais tarde para regressar ao cinema. Hoje, participa em inúmeros projetos e assina também a direção de arte de uma longa-metragem internacional. Seu trabalho adapta-se sempre ao contexto: “Não há uma técnica específica. Tenho necessidade de procurar e desafiar, encontrar novas soluções dentro de cada projeto.”
Na ilustração editorial, desenvolveu a coleção A Aranha Antonieta, composta por cinco livros publicados pela Penguin, além de colaborar em outra obra, O Mundo de Sofia, sobre diabetes. Versátil e inquieta, Vanessa desenha a partir do movimento – e de uma curiosidade que nunca esmorece.
A Antonieta estava na sua cabeça há muito tempo, antes de ter se materializado em A Aranha Antonieta e o AEIOU, o primeiro título da coleção A Aranha Antonieta, publicado em 2020. A ilustração que Vanessa escolheu compartilhar conosco é retirada do quinto livro, A Aranha Antonieta e o Sr. Natal, que revela algumas tradições desta época. Os livros incluem um guia para famílias, professores e educadores, com ideias e atividades para fazer com os mais novos.









