Um guia para aqueles que se sentem perdidos

Um guia para aqueles que se sentem perdidos

O teatro de Juan Mayorga, uma das figuras mais proeminentes da dramaturgia espanhola contemporânea, é, como ressalta o encenador Pedro Carraca, fascinante pela capacidade de nos deixar com a sensação de que “saímos do teatro sabendo quase tanto sobre o que vimos quanto quando entramos. Mas, com muitas questões para refletir.” É um teatro vibrante que continua a interpelar-nos após o espetáculo, alinhando-se com os próprios termos que o autor define como essenciais ao seu trabalho: “ação, emoção, poesia e pensamento.”

No início, Os Jugoslavos se desenrola como um policial. Um bar é o cenário onde a máquina de café opera e as colheres se fazem ouvir nas chávenas. O proprietário, Martín (Pedro Caeiro), observa um cliente confortando outro. Quando este último, que mais tarde saberemos ser Gerardo (Paulo Pinto), pede a conta, Martín decide fazer-lhe uma proposta fora do comum.

Ângela (Inês Pereira), esposa de Martín, mantém-se há mais de seis meses em total silêncio. Ela interrompeu seu trabalho no bar e, sempre que o marido retorna após um dia de trabalho, assume uma presença fantasmal. Ao observar a habilidade de Gerardo em se comunicar, Martín vê nele a capacidade de mudar as pessoas com palavras e decide desafiá-lo a conversar com Ângela, na esperança de ajudá-la a recuperar sua voz.

Apesar de hesitante, Gerardo acaba por aceitar o desafio. Esse encontro inusitado também o leva a se conectar com a filha adolescente, Cris (Mercês Borges), que se vê impelida a desvendar o mistério por trás do silêncio da mãe.

Neste ponto, o público já se vê envolto em outras questões, como quem é Gerardo e o que o motiva, e por que Ângela passeia, dia após dia, pelas ruas da cidade, com um velho mapa de um país que já não existe.

Os Jugoslavos, peça de 2025, é imersa em mistério. Para Pedro Carraca, dirigir este texto, após uma comédia negra como Jantar, de Moira Buffini, representa a vontade de refletir “sobre nós mesmos, sobre as coisas que tomamos como garantidas, sobre nosso sentido de pertença, sobre a memória das pessoas com quem convivemos e os lugares onde o fazemos.”

Embora o título suscite a memória de um país que já não existe, a peça está longe de ser uma crítica política. A extinta Jugoslávia serve como uma metáfora existencial que se manifesta através dos “jugoslavos” que esquecem o mapa no bar de Martín, o qual será fundamental para as andanças de Ângela pela cidade. Em última análise, trata-se da “busca de um sentido ou de um lugar no mundo após uma perda traumática” – no caso de Ângela, a alegria de viver, a solidão e a capacidade de comunicação.

Não é apenas Ângela que busca seu lugar no mapa emocional esquecido no bar; na verdade, todos os personagens de Os Jugoslavos estão à procura de um chão e das coordenadas que os levem a encontrá-lo, tentando escapar da desolação de quem se tornou um estrangeiro em sua própria vida.

Em cena, no Teatro Paulo Claro, até 28 de março.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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