Descubra a Tranquilidade, Porto

Descubra a Tranquilidade, Porto

E continuamos pela avenida abaixo, como se fôssemos empurrados para longe do ventre. Mas o que é aquilo, papá? Sem olhar para trás, admiro as sombras da Rua de Arroios, da Francisco Ribeiro e dos Anjos. São as paralelas da vida que nunca poderão ser uma linha reta. E para onde vamos, papá? Dobro a língua, depois a esquina, e sigo sonhando com o quarteirão de papel onde se encontra o hotel. Os pais aprenderam a dominar o silêncio. Descemos rumo ao mui famoso e desconhecido Martim Moniz. As peles escurecem, as máscaras desaparecem, os dentes começam a escassear, surgem as luzes artificiais a iluminar hijabs, e ai, os bêbados como entortam aqueles passos. Tudo se torna mais cheap, do you want some chip?, mais plástico, menos produtivo, e os produtores, com o braço esticado, prontos, os corpos e os copos caídos. Aqui, há uma beleza saturna impossível de decifrar aos olhos soturnos da cidade-postal. Ainda aqui, pululam finas flores, são turistas alto-quilate (ou viajantes Easyjet, nunca saberemos até entrarmos pelo seu caderno de viagem) dentro daquelas janelas de elétrico amarelo, desejosos do genuíno que ajudam a extinguir. E o meu miúdo oferece-lhes um sorriso a valer, so cute, so portuguese.

Afinal, não somos estrangeiros. Mas, debaixo das arcadas esquecidas, televisionadas por drones securitários, continuamos a ser filmados e encenamos um adeus: Adeus, ó paz social. O Afonso manda um beijinho, gesto que será criminalizado pelos comentadores que nos confundirão com estrangeiros traficantes, assaltantes ignóbeis ou inúteis da ZONA MAIS PERIGOSA DA HISTÓRIA DA CIDADE. Despreocupada com essa segurança NOW, uma mulher de cabelo roxo continua a beijar “aquela rapaz” e esfrega as tatuagens inquietas entre os seus gémeos. O velho, que nem lê romances, atira o telemóvel para junto das lagostas, e os netos, às gargalhadas a milhares de quilómetros de distância, têm prova de que o bicho de mil patas existe mesmo. Lembro-me dos caracóis que comi no verão no João dos Cornos, exquisite food para alimentar a lente dos americanos estrábicos.

Talvez este seja o guião final para os próximos anos, nesta Almirante semelhante a um grande plano-sequência de um filme à procura do seu realizador. Spoiler alert, Afonso: não o descobrirás.

— Ó minha Almirante carnuda, és contingência incessante jamais relambória.

Aceito o convite para esta longa-metragem pornográfico-urbana (haverá outra exceção futura a não ser montar uma tenda por baixo daquelas arcadas?) e reparo que há algo de profundamente explícito quando lambo o recibo mensal da minha renda moderada. Fotografo sem flash, sem filtro e de olhos fechados, continuo agarrado à esperança de um qualquer fotograma final que nos salve. Salvar de quê? A invisibilidade será a vitória do inevitável.

Entre o Chiado e o Rossio, tomo um café gelado com Pessoa. Fernando, em silêncio, continua a escrever sobre os restos da cidade pronta para deixar de ser sua. Será que alguma vez foi nossa? De alguém? De quem? Estamos a um trolley do empurrão final. Discutimos o futuro, esse nó cego atirado para trás das costas, falamos do passado e das retrotopias diante de nós porque as podemos apalpar. Uma, duas, três vezes. Na mesa do café, no balcão da taberna ou no Parlamento. Entre o primeiro e o segundo gole de liberdade, dou por mim a embriagar-me neste texto gélido pelo caderno encapado com o Nobel da Azinhaga, esse fenómeno esquecido a julgar-me com o seu olhar tranquilo. José, terminamos isto agora.

Um velho sorri desleixadamente aos pés da escadaria da igreja de Arroios, sussurra como quem reza: O problema é desejares tanto a viagem e nem conheceres a tua identidade. E volto a abrir a mensagem da minha senhoria: Quando o meu colega chegar, peço-lhe como resolver mais esse passo… (sic). O invisível surge: os pobres filósofos sem casa, e os ricos iletrados a alugá-las.

A cidade especula moderadamente com o nosso sorriso, com o nosso movimento, tempo, estômago, conhecimento, pensamento, dinheiro. Brinca com os nossos sonhos e, no final das contas, e no final do mês, ainda pergunta: Tem reserva para jantar?

— Então Lisboa acabou, é isso? — pergunta o leitor céptico.

— Não, amanhã serei mais jovem. Lisboa ainda nem começou e nós seremos eternamente os órfãos desta cidade por vir. Isto não é um adeus, apenas resistência. Devemos resistir.

Fecho os olhos e acredito na luta pelo descolamento da rotina, as flashadas de luz à Wong Kar Wai a irromper pelas avenidas molhadas de uma mente desadormecida. Mas sinto a vertigem do meu sofá a chamar-me. Estaciono o carrinho de bebé. Descalço-me. Procuro o conforto do meu grande ecrã, todos precisamos do grande ecrã para confirmar essa mentira da casa segura, o estore meio abaixado perante a ilusão onírica de ouvir o tilintar de um brinde com o José do Nobel enquanto explica ao Fernando que temos de sair da Avenida para ver a Almirante. Até já, Reis.

*O autor escreve com o antigo Acordo Ortográfico

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

axLisboa.pt
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.