Por vezes, surgem coincidências que não podem ser ignoradas. Há um ano, a MTL – Music Theater Lisbon estreava, precisamente no Teatro Variedades, o musical de Jonathan Larson Rent. Esta foi a primeira grande produção da MTL a ser levada ao palco, trazendo a experiência da Broadway a Lisboa, na versão portuguesa de um dos marcos do teatro musical norte-americano das últimas décadas.
Devido ao sucesso de Rent, que regressa em meados de maio, agora no Auditório dos Oceanos do Casino de Lisboa, a MTL decidiu imediatamente qual seria a próxima produção: In the Heights, o aclamado musical do norte-americano de ascendência porto-riquenha Lin-Manuel Miranda.
Em conversa com o autor, Sissi Martins revela que, sem dúvida, sem Rent não teria ocorrido In the Heights. “Quando mencionámos que havíamos realizado a peça de Jonathan Larson, Lin comentou que, embora já fosse um fã de musicais, foi no dia do seu 17º aniversário, ao assistir Rent, que se deu conta de que poderia escrever sobre o seu bairro, sobre sua cultura e suas pessoas.” Se Larson criou um musical que falava sobre gente comum vivendo em bairros de Nova Iorque e enfrentando problemas reais, por que Miranda não poderia fazer o mesmo? “Nessa noite, ele provavelmente começou a escrever In the Heights,” conta a encenadora, enfatizando a curiosa coincidência de esta peça ser a sucessora de Rent no repertório da produtora que dirige com Martim Galamba e Ruben Madureira.
Ambientado em Washington Heights, ao norte de Manhattan, com a Ponte George Washington sempre em fundo, In the Heights forma um mural de personagens que retratam uma comunidade onde cada indivíduo busca seu lugar no mundo. Como observa Sissi Martins, “é a comunidade latina que Lin tão bem conhece através das suas vivências. Lá está a Abuela, os primos, o imigrante que nunca aprendeu inglês e todos aqueles jovens que já nasceram ou cresceram na América, mas que não conseguem se sentir americanos.”
Em declarações exclusivas para a folha de sala do espetáculo, Lin-Manuel Miranda destaca que “a palavra ‘Casa’ é a âncora para todo o espetáculo: as saudades de casa, a consciência de que, talvez, casa não seja onde cresceste, e o que significa ‘Casa’ quando os teus pais reivindicam uma pátria diferente.” Essa “casa” que o protagonista, Usnavi, um jovem dominicano e dono de uma bodega, sonha encontrar em uma República Dominicana que deixou na infância, mas na qual busca realizar o sonho de um dia reconstruir o quiosque de praia do falecido pai.
À volta de Usnavi, cujo nome curioso se origina do primeiro navio americano que seu pai viu, que tinha inscrito ‘U.S. Navy’, e da sua pequena mercearia, giram as vidas de todo o bairro. Há aqueles com sonhos maiores, como Nina, a filha dos proprietários de uma pequena empresa de táxis, que se tornou uma espécie de estrela do bairro por ter conseguido ingressar na universidade; ou Vanessa, a paixão de Usnavi, que trabalha num salão de beleza e sonha viver no centro de Manhattan; ou Benny, o afro-americano que trabalha na empresa dos pais de Nina; ou Sonny, o primo de Usnavi que, com uma forte consciência social, procura dignificar o bairro e sua comunidade.
Entre os mais velhos, destaca-se a figura tutelar de Abuela Claudia, uma imigrante cubana que se apresenta como uma espécie de matriarca do bairro, sempre zelando pela união da comunidade. Enquanto nova-iorquino, Miranda confessa ficar “simplesmente maravilhado com a experiência do imigrante, e com a coragem e tenacidade necessárias para desraigar a própria vida e recomeçar em outro lugar.”
Com ritmos de hip-hop, salsa e merengue, In the Heights equilibra habilidosamente o tom festivo com a melancolia. Propondo, entre a vibração dos corpos e o calor escaldante das ruas de um bairro latino durante três dias de intenso calor, uma reflexão sobre identidade e pertencimento, gentrificação e o peso das expectativas, o musical em dois atos de Lin-Manuel Miranda, precursor do aclamado Hamilton, continua a ser, 20 anos após sua estreia, um dos mais representados no mundo inteiro.
Após um processo de seleção com centenas de candidatos, priorizando intérpretes triple threat devido à elevada exigência coreográfica deste musical, Sissi Martins e sua equipe da MTL estão muito satisfeitos com o elenco reunido. Além dos consagrados e experientes Luísa Cruz, Marta Mota, Pessoa Júnior e Tiago Retrê, In the Heights conta com um enérgico grupo de jovens talentos, liderados por Gonçalo Rosales no papel de Usnavi.
Com música e letras de Lin-Manuel Miranda e livreto de Quiara Alegría Hudes, a versão portuguesa de In the Heights possui adaptação de João Sá Coelho e conta com coreografia de Marco Mercier, direção musical de Tom Neiva, direção vocal de Carlos Meireles, e os músicos ao vivo Artur Mendes (saxofone), Jackson Azarias (baixo), João Gomes (trombone), João Ventura (bateria), Kent Queener (piano) e Micael Pereira (trompete). O espetáculo estará em cena até 3 de maio no Teatro Variedades, ao Parque Mayer.







