A história da Bela Adormecida ganha nova vida com princesas, reis e cavaleiros em cena… mas com todos exibindo cabelos brancos ou grisalhos. Esta representação inovadora já é uma realidade no teatro, graças à Companhia Maior, onde a idade é valorizada.
Há 15 anos, Luísa Taveira, antiga bailarina da Companhia Nacional de Bailado, concretizou um desejo antigo: combater o preconceito contra a idade e trazer de volta aos palcos artistas com mais de 60 anos. Essa ideia já existia em Londres e, há 15 anos, começou a tomar forma em Portugal.
Para celebrar esta trajetória, a Companhia Maior apresenta a peça “A esta hora, na infância neva” no Centro Cultural de Belém, em Lisboa, de 7 a 11 de dezembro.
Os atores crescidos
Carlos Nery, com 92 anos, é o mais velho dos atores da companhia.
Ele dedicou grande parte da sua vida ao teatro, atuando no Teatro Experimental do Porto e no Teatro da Cornucópia, além de dirigir peças na Guiné durante o serviço militar. Como muitos artistas, viu a reforma chegar precocemente.
“Neste momento, em Portugal, há muitos artistas que não têm trabalho. A partir de certa idade, é difícil integrar-se. E não é necessário ser muito velho; simplesmente, ao se perder a juventude, já não se conseguem todos os papéis.”, explica.
Foi essa dificuldade que o motivou a buscar na Companhia Maior um novo projeto, um espaço onde ainda era valorizado pelo seu talento, não pela idade. Carlos compartilha: “O que eu mais gosto de ouvir de um encenador é: ‘Vou tratar-vos como qualquer ator’. A questão da idade é deixada de lado e somos todos profissionais.”
Esse é o diferencial da Companhia Maior – assim o afirma Paula Varanda, de 55 anos, presidente da direção. A companhia proporciona um ambiente profissional para atores seniores e permite que trabalhem “dentro de um discurso contemporâneo, sem a ideia de que as pessoas mais velhas são apenas portadoras da tradição.”
Por isso, nenhuma ideia está fora de questão e “podemos imaginar que os intérpretes mais velhos nem sempre precisam interpretar avós ou idosos”, destaca.
Cristina Gonçalves decidiu parar de revelar sua idade, pois sente que isso impacta a forma como é percebida. Para ela, a arte tem o poder de livrar as pessoas do peso da idade e serve como um refúgio em uma sociedade que frequentemente esquece os mais velhos.
“Portugal não é um país que valoriza os idosos; pelo contrário. É um país que os marginaliza politicamente e socialmente. Acredito que, através da arte, isso pode mudar. Trazer as pessoas para um espaço onde possam estar.”, defende.
A paixão de Cristina pelo teatro surgiu na sua carreira como professora de inglês e alemão. Durante 40 anos, ela sempre buscou integrar dança e teatro nas suas aulas, participando de workshops no Centro Cultural de Belém dedicados à arte no contexto escolar.
Ela se juntou à Companhia Maior em 2010 por acaso, ao se inscrever em um workshop não planejado. O que começou como um acidente rapidamente se transformou em uma oportunidade de desfrutar a reforma fazendo o que realmente ama.
Atualmente, Cristina se surpreende com tudo o que tem experimentado na Companhia – até mesmo usar um vestido, algo que fazia raramente. “Nós, mesmo com joelhos desgastados e sem a mesma energia de pessoas mais jovens, sempre dizemos sim”, acrescenta.
Cristina acredita que o público também é surpreendido e começa a mudar a maneira como vê o envelhecer: “As pessoas ficam impressionadas. Elas se lembram de familiares da mesma idade ou até mais jovens do que nós, e que não imaginam que possam fazer o que nós fazemos… Mas todos podem.”
À frente desse projeto, que visa a emancipação de artistas mais velhos, Paula revela que o maior desafio tem sido conseguir apoios e garantir a continuidade da companhia, já que a Companhia Maior não concorre facilmente com projetos sociais urgentes para a terceira idade (como lares ou apoio à saúde) nem com companhias artísticas tradicionais – embora tenha seu valor em ambas as áreas.
Um encontro de gerações
A Companhia Maior produz anualmente um espetáculo, sempre sob a orientação de um encenador ou coreógrafo diferente. Neste ano, Victor Hugo Pontes, de 46 anos, dirigiu a peça “A esta hora, na infância neva”.
A encenação, que será apresentada no Centro Cultural de Belém, partiu de perguntas levantadas por Victor Hugo Pontes: “O que acontece a um corpo que envelhece? Como é a intensidade do gesto de um corpo mais velho? Qual é o contraste entre um corpo jovem e um corpo mais velho, mais vivido?”.
No trabalho da Companhia, busca-se valorizar o confronto entre gerações, combinando a experiência dos atores seniores com a inovação de artistas e encenadores mais novos.
Para Victor Hugo, esse modelo permite uma “troca de conhecimentos e saberes”, beneficiando todos os envolvidos: “Os mais velhos observam os corpos dos mais novos e tentam imitar, o que acaba por ser inspirador. Porém, a carga emocional que os mais velhos trazem para suas atuações também serve de inspiração para os mais novos.”
O ambiente de proximidade entre os atores propicia um espaço de encontro e troca, especialmente valorizado por aqueles que enfrentam a solidão, como observa Carlos Nery:
“A minha vida mudou muito devido à experiência que tenho na Companhia Maior. Meus amigos mais antigos, alguns já não estão mais aqui, mas hoje meus amigos são meus colegas da Companhia Maior; eles estão vivos e fazemos coisas juntos.”
Ganhar anos de vida
Decorar falas, repetir textos, coordenar movimentos, ensaiar ritmos… No palco, os atores exercitam a mente e o corpo simultaneamente, sentindo-se parte de algo Maior.
“Eles estão envolvidos em uma prática física, intelectual e emocional que os obriga a colaborar, entender, dar e receber. A colaboração criativa entre pessoas, com certeza, traz muitos benefícios para sua vivacidade, motivação e sentimento de pertencimento a algo maior”, descreve Paula Varanda, presidente da Companhia.
Ao observar de perto o trabalho dos atores, o coreógrafo Victor Hugo Pontes assegura que a evolução é visível e reflete na qualidade de vida deles:
“É evidente o progresso que os intérpretes têm alcançado. A agilidade, a coordenação, a memória, a disposição e até o humor deles mudaram. O entusiasmo que demonstram diante da vida é bem diferente. Muitas vezes, eles chegam no início do ensaio reclamando, mas em 10 minutos já estão integrados e esqueceram das dificuldades.”
Nos ensaios que precedem o espetáculo, o nervosismo é palpável, mas também há espaço para reflexões. Carlos Nery se adianta para compartilhar seus pensamentos:
“Eu uma vez disse ao Victor Hugo… Normalmente, começamos a descascar uma cebola tirando camadas até chegar ao núcleo. Mas você começa no núcleo e vai acrescentando camadas.” Com um sorriso, ele acrescenta: “Está quase completa a cebola, só faltam as últimas camadas.”
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