Trocas Inesperadas: O Encontro de Pessoa e Saramago

Desfile por este caminho solitário (em um carrinho de bebê)

A inquietação de uma conversa, ao mesmo tempo intrigante e improvável, surge também da simples constatação de que os protagonistas desse diálogo nunca se cruzaram. Contudo, essa evidência só é percepcionada por aqueles que tiveram a oportunidade de ler suas vastas obras, unindo letras sem pensar muito nas palavras que tinham diante de si.

Os próprios contextos históricos que moldaram suas identidades, incluindo suas origens, experiências, ideias e ideologias, deixam claro que Pessoa nunca leu Saramago, embora este tenha se inspirado no primeiro. O “Desassossego” na estante da “Casa” em Lanzarote e o “quadro” em uma das paredes dessa mesma “Casa” desmentem qualquer ilusão contrária.

Saramago admirou Pessoa, tanto como figura quanto como autor, reconhecendo a singularidade dessa primeira e a vastidão da segunda. Sem dúvida, um apreciador da riqueza que ambos representam!

Pessoa, por sua vez, não teve a oportunidade de conhecer Saramago e sua obra. Essa limitação se deve, sem dúvida, ao tempo, e não à vontade.

Aqueles que, por um acaso dos tempos, têm a possibilidade de conhecer as obras de ambos, são convidados a refletir sobre o que nelas é marcante, pois, de fato, deixa uma marca, mesmo quando os autores, por infortúnios do destino, não se encontraram. A sorte está do nosso lado ao podermos apreciar a obra de ambos, os seus desejos e os tempos que viveram.

Se há algo que a escrita possibilita, poderíamos resumir em uma palavra: tudo.

Não sabemos se a vida é justa; desconfiamos que sim. Acreditamos que as ambições, ilusões e sonhos que todos nutrem ao longo da vida têm alguma validade.

Entretanto, uma conversa improvável entre esses dois pensadores sobre qualquer tema será sempre tão virtuosa que nós, leitores, receptores, ouvintes, devemos ter a humildade de “ouvir escutando”, “olhar vendo”, “ver reparando”, enfim, desejar saber acreditando naqueles que deixaram para a posteridade, por meio da arte e do conhecimento, muito do que vislumbraram, além do seu tempo.

O comércio (e suas diversas facetas) seria, sem dúvida, um assunto propício a um diálogo entre eles. Em circunstâncias diferentes, em tempos e vontades distintas, entre ideais e ideias confusas, a colocação por escrito de suas reflexões sobre o comércio poderia servir como um mote para unir os pensamentos de Pessoa e Saramago, promovendo um intercâmbio que nos permitiria aprender e admirar o poder de ideias que perduram.

É certo que esta conversa improvável, também sobre Comércio, será apenas mais uma entre muitas, mas algumas são muito mais (im)prováveis do que outras!

Não se tratando de um monólogo ou diálogo, mas uma tradução de uma vontade talvez egoísta e simples, busca-se abordar um tema intemporal, pois o Comércio é aceito como uma atualidade de ontem, hoje e amanhã – questiono, não afirmo!

Convidar duas das maiores figuras da nossa literatura, para mim e para muitos, é um esforço que, com a pesquisa de textos e a seleção cuidadosa de suas palavras ou pela determinação em relação ao seu legado, busca estabelecer um sólido fundamento e uma justificativa para esta ousadia em expor uma fração do pensamento de ambos. Sem intenção de parecer pretensioso, a única ambição reside na crença de que o Comércio nunca será indiferente!

Portanto, o tema da nossa conversa é… o Comércio e seus principais protagonistas – os Comerciantes.

Ao convocar os participantes dessa conversa, tomei a liberdade, palavra preciosa para ambos, de os trazer à minha imaginação e, em certos momentos, intervir na direção do diálogo.

A magia da escrita também é isso!

O cenário escolhido, que insisto em dizer, foi imaginado por mim, poderia ser a Baixa ou o Chiado, bairros históricos de Lisboa – ruas largas ou estreitas, repletas de comércio, trânsito intenso e ruídos urbanos, ou, ainda, a Azinhaga no Distrito de Santarém – uma aldeia, com caminhos estreitos, ambientes naturais e uma sonoridade mais rural, ou Lanzarote, a mais oriental das Canárias, apresentando outra realidade e um outro tipo de solidão.

Apesar de serem sempre as mesmas “palavras”, acordadas a diferentes “vozes”, todos os cenários seriam distintos e apropriados, mas isso é indiferente para o tópico em questão.

Diante do tema, para garantir alguma coerência, decidimos ficar pelo Café Martinho da Arcada… Afinal, trata-se de um comércio.


Da essência e evolução do comércio… à alegoria d’A Caverna

Iniciamos, sem realmente perceber, um diálogo sobre Comércio, inspirado precisamente pelo local escolhido para ambientar essa conversa.

Com quase um quarto de milênio de história, o Café Martinho da Arcada abriu em 1778 e, após 17 anos, quase atingindo a maioridade, assumiu o nome de Café do Comércio, refletindo seu contexto de forma notável. Muitos podem não saber, mas se houvesse uma eleição para definir Comercios Históricos, talvez esse fosse o estabelecimento símbolo de uma história ainda não contada do Comércio.

Empolgado por tal coincidência “comercial”, levantei a questão sobre qual livro ou texto cada um poderia associar às temáticas ligadas ao Comércio.

Talvez, pela prioridade cronológica e pelo status, Pessoa foi o primeiro a se pronunciar. Com seu estilo e elegância, afirmou que escolher um único texto seria ingrato, mas mencionou dois, publicados em 1926 na revista Comércio e Contabilidade: “A Essência do Comércio” e “A Evolução do Comércio”.

Desses textos, que variam em extensão e complexidade dependendo de quem os lê, Pessoa compartilha alguns trechos que transcrevo a seguir:

Na “Essência”, começando pelo Comerciante, ele afirma:

Um comerciante, qualquer que seja, não é mais que um servidor do público, ou de um público; e recebe uma paga, a que chama seu “lucro”, pela prestação desse serviço. Toda a gente que serve deve buscar agradar a quem serve, e para isso é preciso estudar a quem se serve, sem preconceitos. Partindo do princípio de que se queremos servir os outros, nós é que devemos pensar como eles, o que importa é como eles efetivamente pensam, e não como seria conveniente que pensassem. Nada revela mais a incapacidade do comerciante do que concluir o que os outros querem sem estudá-los, mantendo-se fechado em sua própria cabeça, esquecendo que são os sentidos que fornecem os elementos para formar nossa experiência.”.

(…)

O estudo psicológico do mercado é importante, mas, enquanto o estudo econômico é essencial em qualquer comércio, é o comércio de retalho que mais deve prestar atenção a este elemento.

“A maneira de fabricar, apresentar e distribuir um produto varia conforme a índole dos indivíduos que compõem o mercado. Em um meio educado, as condições são diferentes das que se apresentam em um meio de analfabetos. Um meio provinciano tem uma psicologia distinta de um ambiente urbano.”

(…)

“A maneira de encarar a vida varia de país para país, de região para região. A humanidade é a mesma, mas sempre diferente. Em toda parte, é o superficial e o ocasionais que mais preocupam. É a essas necessidades que o comércio essencialmente se dirige, e por isso o comerciante deve estudar psicologicamente os agrupamentos humanos a que destina seus produtos.”

Com uma pausa que permite absorver essas evidências, Pessoa, da “Evolução”, continua:

Os mistérios do lucro eram vistos como uma forma de servidão voluntária, marcada pelo desprezo pelo comerciante. O pequeno comerciante de retalho acaba, de fato, sendo uma sobrevivência necessária, carregando uma sombra do desprezo do passado.

Após um breve silêncio, diante da riqueza desse discurso, qualquer outro interlocutor ficaria espantado, envolvido na aprendizagem. No entanto, Saramago, conhecedor e admirador de Pessoa, respondeu prontamente ao desafio de identificar qual de suas obras mais se relacionaria com o comércio, afirmando, sem hesitações, que “A Caverna”, publicada em 2000, seria sua escolha, quase 75 anos depois das publicações de Pessoa que mencionou anteriormente.

Embora seja um romance menos reconhecido, essa escolha faz sentido. Aqueles que o leram sabem que “A Caverna” se torna um livro imprescindível para entender o Comércio, seja na história, seja na sua narrativa.

O que Pessoa aborda se encaixa perfeitamente na narrativa, revelando o conflito entre um grande Centro de Comércio e uma pequena unidade industrial chamada Olaria, onde as decisões sobre o que se pode vender são tomadas, mas isso não implica saber como e por quanto venderá.

Reconhecer quem compra é essencial, mas é fundamental conhecer quem poderá vir a comprar!

Assim, Saramago começa a apresentar uma série de excertos de “A Caverna” que capturam a essência do Comércio contemporâneo: “O que será de nós se o Centro deixa de comprar? Para quem passaremos a fabricar louça se são os gostos do Centro que determinam os gostos de todos? Perguntava-se… houvera uma ordem para reduzir as compras, vinda de alguém indiferente à existência de um oleiro, e isso poderia ser apenas o primeiro passo de um desastre. Como se prepara alguém para levar uma martelada na cabeça?

Sem permitir a interrupção, Saramago expõe outro excerto que retoma o fio da conversa: “Recomendamos aos confusos que se conheçam, como se essa não fosse a operação mais difícil da aritmética humana. Dizer aos indecisos que o querer é poder ignora as realidades do mundo que viram a posição dos verbos a cada dia.

Nesse momento, surge a reflexão sobre a quem se dirige Saramago: aos que vendem ou aos que compram? Afinal, uma das grandes questões do Comércio é saber se se vende apenas aquilo que se compra de fato ou se só se compra o que está realmente à venda. Uma espécie de novelo da vida!

Mais do que uma conversa entre Fernando e José, o que Pessoa e Saramago deixaram escrito e os exemplos apresentados representam meros fragmentos. O verdadeiro alcance dessa conversa improvável se encontra na leitura atenta dos entrelaçamentos de ideias (ou ideais) de ambos os autores, que se distribuem ao longo de décadas, onde mais do que concordar ou discordar, prevalecem os tempos e vontades, o querer e o crer, as singularidades e a pluralidade!

Sendo certo que isso não comprometerá quem lê, comprometerá bastante quem escreve… ainda assim, isso promete… continuar.

(continua …)


João Barreta

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