O músico do Bairro da Praça de Alvalade que fascina os habitantes do pátio, agora possui um novo instrumento.

O músico do Bairro da Praça de Alvalade que fascina os habitantes do pátio, agora possui um novo instrumento.
Fernando e o “anjo-da-guarda” Gabriel: violino novo e promessa de tocarem juntos.

Viver próximo a um supermercado tem suas vantagens, como ter sempre disponível pão, leite, peixe, carne, frutas e legumes. Na Praça de Alvalade, há ainda mais: a possibilidade de ouvir uma das Quatro Estações de Vivaldi ou até um hit de Justin Bieber tocados no violino. Isso tem sido a experiência dos vizinhos do Continente Bom Dia de Alvalade no último mês, desde que um talentoso funcionário e seu violino se juntaram ao ambiente.

Ele é Fernando Arsênio, um angolano de Benguela, de 21 anos, que chegou a Lisboa no início do ano trazendo seu violino e um sonho: tornar-se músico profissional. Enquanto isso, para se sustentar, encontrou emprego no Continente.

“Um dia quero ver meu nome em um cartaz de concerto”, diz Fernando, sonhando acordado.

Atualmente, ele é um artista sem palco, concertos ou digressões. Além de tocar no pátio nos fundos do supermercado e em seu pequeno quarto em Moscavide, Fernando apresenta-se para o público apressado na estação de comboios do Oriente.

Seu repertório é eclético, abrangendo desde a música clássica de seus amados Vivaldi e Beethoven até canções pop de Justin Bieber, Ed Sheeran e Rihanna.

No entanto, a pressa das pessoas acabou acarretando uma dor de cabeça para Fernando. Um dia, um passageiro saiu bruscamente da carruagem do metrô e atingiu a caixa do violino, causando uma fissura na parte frontal do instrumento.

Mas após a publicação da primeira versão desta história pela Mensagem, Fernando recebeu um novo violino, oferecido pelo músico Gabriel Coutinho, que ficou “sensibilizado” ao ler sobre Fernando.

“Quando vi aquilo, pensei: deixa-me oferecer um violino ao meu amigo”, conta Gabriel, agora com 73 anos, mas que já tocou guitarra elétrica em bandas de rock e acompanhou outros músicos no palco.

Gabriel entrou em contato com Fernando no Continente de Alvalade e o levou para escolher um instrumento em uma loja de artigos musicais em Alfragide. “Pedi que escolhesse o instrumento. No início, ele ficou um pouco envergonhado, mas depois aceitou”, lembra Gabriel, que bancou os 790 euros da compra.

“Passei a noite toda a tocar”, comenta Fernando, como uma criança diante de um presente esperado.

O novo instrumento do violinista do supermercado.

O encontro entre os dois não deve ser o último. Fernando já recebeu um convite para formar um dueto com Gabriel, nos ensaios da banda de garagem do experiente músico, ao lado de amigos.

“Ainda arranjamos um número qualquer”, reforça Gabriel.

Para Fernando, o que aconteceu entre a publicação da história na Mensagem e a aquisição do novo violino, em apenas uma semana, foi mais do que um pequeno milagre. “Pequeno? Foi um grande milagre”, diz ele, sorridente.

O menino que queria ser padre virou violinista

E Fernando sabe muito sobre milagres. Até colocar as mãos em um violino pela primeira vez, há dois anos, o jovem músico acreditava que sua vocação era ser padre. Isso começou na infância. Entrou no seminário aos 9 anos e só saiu aos 18, para cumprir um ano de reflexão obrigatório antes de realizar os votos eclesiásticos.

Fernando conta que na infância se emocionava com “o estilo de vida” do tio padre. Certa vez, chegou para os pais e anunciou que queria ser padre como o tio. Orientado pelo parente, cumpriu do quarto ao sétimo ano de estudos em um seminário em Huambo e mais cinco anos em uma segunda instituição em Luanda.

Quando criança, Fernando queria ser padre: após nove anos no seminário, a vocação era outra, a de músico.

Foi no seminário que Fernando teve os primeiros contatos com a música, aprendendo a tocar flauta, guitarra e piano. O violino veio depois, quando ingressou em uma orquestra em Benguela, mas já sem o desejo de se tornar padre.

O jovem decidiu passar seu ano de reflexão em um lugar famoso por diversas razões, mas não necessariamente por fortalecer a vocação religiosa. “Acabei indo para o Brasil, imagine”, diverte-se o músico, que foi convidado por amigos angolanos que viviam no Rio de Janeiro e, depois, em Recife. Seis meses em cada uma dessas capitais ensolaradas, repletas de samba, maracatu e carnaval, não foram suficientes para fazê-lo retomar sua trajetória como padre.

Com paciência, a igreja perdeu uma ovelha, mas o rebanho dos músicos ganhou um violinista. Ao retornar a Benguela e integrar a orquestra, Fernando inicialmente pensou em aperfeiçoar sua técnica no piano, mas os planos mudaram.

“O nível era muito básico, e tudo o que ensinavam, eu já sabia. Foi então que conheci o violino”, recorda.

A apresentação aconteceu apenas em outubro de 2023, mas como as grandes paixões, foi arrebatadora. Enquanto outros músicos iniciantes praticavam uma vez por semana, Fernando mantinha uma rotina de cinco a seis horas diárias de prática. O resultado foi uma ascensão rápida, levando-o a participar de apresentações oficiais da orquestra.

No final do ano passado, o jovem violinista convocou seus pais para uma conversa franca, como aprendeu a dizer no português brasileiro. “Pensei que era hora de concluir os estudos, quem sabe em outro lugar. Lisboa parecia o lugar mais apropriado para as coisas acontecerem”, diz.

E assim, em janeiro de 2025, Fernando e seu violino chegavam a Lisboa.

Inicialmente, o plano era entrar na universidade para estudar psicologia, um objetivo que foi adiado temporariamente enquanto organiza suas finanças e aguarda a chegada do visto da CPLP.

Fernando, o violino e os colegas de trabalho no supermercado, onde agora é conhecido como “o nosso artista”.

Enquanto isso, ele se dedica à prática do violino, esperando que Damon resista à fissura até seu primeiro “concerto” oficial em Lisboa, um casamento em que foi convidado a tocar no final de outubro. Uma ironia do destino.

Após isso, a fama inesperada nas redes sociais: tornou-se viral em abril, quando começou a trabalhar em outra loja do Continente, na Avenida de Paris, no Areeiro.

“Minha chefe descobriu que eu tocava violino e, um dia, pediu que eu recepcionasse os clientes tocando”, relembra. O vídeo publicado no Instagram acabou circulando na rede interna da Sonae. Agora, Fernando é um forte candidato no próximo concurso de talentos da companhia.

A surpresa de seus colegas de trabalho não foi novidade para Fernando. Antes de sua experiência na rede de supermercados, trabalhou na cozinha de uma steak house na Avenida de Roma, onde seu talento com o instrumento não passou desapercebido.

No último Dia da Mulher, Fernando deixou a cozinha para dar um mini-concerto em homenagem às clientes.

Em Alvalade, seu talento foi reconhecido por meio de um vídeo postado por uma vizinha, mostrando Fernando e seu violino em ação no pátio nos fundos da loja, onde os funcionários costumam se reunir nas pausas para o almoço.

“O violino exige prática diária, e aproveitei meu tempo livre para tocar”, diz.

O concerto foi tão surpresa que até Fernando não sabia que estava sendo observado. “Quando percebi, já era hora de voltar ao trabalho e parei de tocar. Foi então que ouvi as pessoas aplaudindo das janelas dos apartamentos”, recorda.

O vídeo da apresentação foi visto por ele pouco depois, compartilhado por um colega. Desde então, o angolano é conhecido no supermercado como “o nosso artista”.

Um sinal que talvez Deus escreva certo por linhas tortas.


Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

axLisboa.pt
Privacy Overview

This website uses cookies so that we can provide you with the best user experience possible. Cookie information is stored in your browser and performs functions such as recognising you when you return to our website and helping our team to understand which sections of the website you find most interesting and useful.