À frente do cenário de Hugo F. Matos, por agora desabitado, Miguel Seabra percorre com o olhar a estrutura coberta a negro, pontuada por montículos de gravilha preta, onde, a partir de 29 de janeiro, os atores Mónica Garnel e Emanuel Arada serão Winnie e Willie, mulher e marido, naquela que é uma das obras-primas do teatro ocidental do século XX: Happy Days (Dias Felizes), de Samuel Beckett. Começa-se a falar de Beckett e depressa o encenador viaja até 1992 e ao título do primeiro espetáculo do Teatro Meridional, Ki Fatxiamu noi Kui, que pode ser traduzido para “o que fazemos nós aqui”. “Haverá pergunta mais beckettiana”, questiona, lembrando que, embora esse espetáculo fosse “baseado na técnica da commedia dell’arte, tinha um pressuposto muito beckettiano, por ser muito absurdo e imprevisível”. E essa pergunta que dava título ao espetáculo é, para Seabra, “mais ou menos aquilo que pode definir o fundamento do teatro do absurdo”.
A relação com o teatro do dramaturgo irlandês está, portanto, no ADN do Teatro Meridional, que já levou à cena Endgame (em coprodução com os Primeiros Sintomas, numa encenação de Bruno Bravo, em 2004/2005), Waiting for Godot (no Centro Cultural de Belém, com Miguel Seabra a dirigir, em 2006) e agora Happy Days. Para 2028, anuncia-se Krapp’s Last Tape. “Sempre com os títulos originais em inglês”, como sublinha. “Tenho por Beckett um particular apreço e identifico-me intuitivamente com o seu universo, com aquele existencialismo muito próprio do pós-guerra.”
Happy Days, peça que é “um dos grandes retratos da condição humana moderna”, propõe uma reflexão sobre a resistência humana perante a repetição e o vazio. Através de Winnie, uma mulher que nos surge soterrada até à cintura – e, durante o segundo ato, até ao pescoço -, Beckett “constrói um universo em que o tempo se arrasta, o corpo se imobiliza e a palavra resiste como gesto final de sobrevivência”.
A palavra é, aliás, absolutamente fundamental no teatro de Beckett, sobretudo nesta peça. Para termos noção exata disso, nota Seabra que “a Winnie diz 6.500 palavras, o Willie apenas 48, e há 11.500 didascálias”. Por isso, continua o encenador, foi necessário estabelecer com a atriz Mónica Garnel o compromisso de ela dizer cada uma delas. Como se de uma partitura se tratasse. “O grande desafio de fazer Beckett é que os seus textos começam por ser como uma prisão. Primeiro, empurram para o mais subterrâneo que existe em nós, mas depois, levam-nos ao céu. Quando se descobre esse caminho é mesmo muito libertador.”

Como “um paradoxo”, o riso e o desespero coexistem nesta tragicomédia, revelando a fragilidade da condição humana. Através das suas pequenas rotinas e da palavra, Winnie resiste, como “aquela flor que nasce numa racha de cimento, isolada e resistente, procurando sobreviver através da fala e, assim, resgatar a memória”, observa Seabra.
Voltamos a colocar o olhar sobre o cenário, escuro, bem escuro. “Pensei em escombros. Em Gaza”, afirma o encenador. “É uma maneira de sublinhar ainda mais a flor que Winnie é”, conclui. E, como alguém disse um dia sobre o absurdo em Beckett, mais do que uma forma de arte, revela-se uma forma de continuar a existir. Portanto, apesar do negrume, Happy Days faz-nos sentir que ainda há esperança.









