Um colchão insuflável ocupa a cena. Este é o terreno instável que será pisado, durante todo o tempo, pelas personagens de Justiça Cega, espetáculo de Sara de Castro, que se estreia no Teatro São Luiz, esta terça-feira, 27 de janeiro, e ali fica até 7 de fevereiro. Às atrizes Ana Brandão, Ana Ribeiro, Gaya de Medeiros e Teresa Coutinho junta-se ainda Ema de Castro Silva, a criança que aqui simboliza a Justiça, e a quem as primeiras se empenham em mostrar que vale a pena debater o funcionamento desta instituição.
Olhando para o filicídio, crime onde “o horror é o maior”, propõem-se questionar “a roda vingativa em que uma morte se paga com outra”. Vão buscar as histórias de Medeia e de La Llorona, duas mães que mataram os filhos, e também um caso real ocorrido já nos dias de hoje, entre nós. Falam do silêncio destas mulheres e fazem o exercício de imaginar o que poderiam dizer se lhes fosse dada voz. “O que não estamos a ouvir?”, perguntam no palco. “Porque continuam a surgir casos de mães que matam filhos?”. O que se passa nesse “ângulo morto da Justiça” para onde não estamos a olhar? E o que acontece a este terreno que pisamos e que julgávamos firme? O que acontece às nossas certezas?
Uma conversa com a encenadora Sara de Castro, a propósito desta Justiça Cega.
Justiça Cega nasceu da vontade de falar sobre Justiça, e da falta dela, ou de olhar para este crime horrível que é o filicídio? O que despoletou o espetáculo foi um caso real, no qual nos inspirámos: uma filicida portuguesa que, em 2016, afogou as suas filhas. Primeiro fui atropelada por aquela história, aquele crime tão avassalador, e, um ano depois, li que a estratégia da defesa tinha sido que aquela mãe não se pronunciasse, estratégia que terá falhado porque ela teve pena máxima. Depois, percebi que não foi exatamente assim, mas para a nossa história isso interessou-me. A imagem de uma mulher, já sem filhas, sozinha, calada, perante uma justiça punitiva, foi o gatilho para querer pensar sobre isto com outras pessoas.
Na investigação sobre filicídio, naturalmente fomos à Medeia e nesse imaginário da cultura clássica percebi que, na verdade, os alicerces da forma como até hoje vemos a Justiça também estão lá: isto do Estado ter o monopólio da violência, a hegemonia sobre a Justiça, só o Estado poder fazer Justiça e nunca as pessoas pelas próprias mãos. Essa fundação do Direito também está nessa cultura clássica. Percebi que, se calhar, podíamos pensar a Justiça entrando por essa porta muito estreita que é o filicídio. É uma porta estreita porque é um crime sobre o qual ninguém tem dúvidas acerca da punição. Mas aqui vemos pela perspetiva da mulher agressora e não vítima. Normalmente, quando pensamos em justiça e mulheres pensamos nelas enquanto vítimas. Neste caso, queríamos pensar o quanto a Justiça podia ser injusta para uma mulher agressora. Começámos a perceber que a distância que temos em relação a Medeia e a La Llorona, a distância da ficção, nos ajudava a olhar para o que estava para além deste crime que é tão impactante. Ela permite-nos ver todas as outras coisas que podem estar envolvidas.
Algumas das palavras da Medeia foram tiradas ao original de Eurípides, mas há muitas coisas que fomos nós a inventar. Somos nós a tentar imaginar qual seria a narrativa de cada uma delas se fosse escrita por nós e não pelos que têm escrito sempre todas as histórias. É uma espécie de tentativa de uma reescrita, não para ser mais justo, mas para abrir outras possibilidades de leitura. Não é para apresentar a verdade, mas sim outras perspetivas, para podermos olhar para isto ouvindo outras coisas – ouvindo-as.
Não é para as desculpar, não tem a ver com culpa, nem de todo estamos a fazer aqui uma apologia do filicídio, é mesmo para retirar esse peso do que é a culpa – ou melhor, pensando em culpa, o quanto todos nós somos coculpados disto. Porque aquele ato não acontece isolado, no vácuo. Aquilo acontece num contexto, numa circunstância que é esta circunstância patriarcal, opressora, em que as mães têm de ser determinadas de uma certa forma. Sinto que estas mulheres são duplamente culpadas aos olhos da sociedade: são culpadas por ser homicidas, mas também são culpadas por não cumprirem o seu papel de mãe.
Sim, esse ónus não cai exatamente da mesma forma sobre um pai. Por isso, não tem a ver com tirar a culpa, mas com ouvir. Dar-lhes corpo e pôr estas vozes no palco ajuda-nos a ver melhor. Não para as desculpar, mas para ver outras coisas que, com o impacto deste crime tão hediondo, às vezes não vemos. Nem tem a ver com defender. Até podemos pensar como dizemos no espetáculo: Defesa de quê? Defesa de quem? Uma pessoa que chega a um limite destes já está noutro lugar. Este exercício de procurar ouvir outras coisas que normalmente não se ouvem ajuda-nos a pôr em causa os alicerces da Justiça e o quanto estes edifícios são pouco porosos a outras vozes, a outras formas de pensar, a outros formatos e dificilmente se colocam outras possibilidades. Não alinho, de todo, num discurso contra o sistema nem contra as instituições, não tem a ver com isso, mas é este desafio de como podemos pensar esta instituição de Justiça, atualizando-a, para que ela seja, de facto, justa para todas.
O final tem a ver com isso: isto é um desafio a imaginar. “Imagina como podia ser se fosse de outra forma.” Ainda tivemos a tentação de apresentar possíveis alternativas. Sabemos, por exemplo, que existem algumas soluções, com algum sucesso, de justiça restaurativa e não punitiva. Mas acho que o nosso papel não é esse, não é o de dar respostas, é o de perguntar.
Assumir que a justiça pode não ser justa e que podemos repensá-la, sim. Ainda por cima, se pensamos que os tais alicerces têm 2500 anos, se calhar há formatos que podemos repensar. Será que haveria outro formato de julgar? Será que a punição é a melhor resposta que a sociedade pode dar a um crime? Será que para todos os crimes a punição é a resposta? No caso destes, então, é mesmo muito questionável. E é esse incómodo de pensarmos o quanto todos nós somos corresponsáveis. Levamos a pessoa a tribunal, a pessoa é condenada e vai para a prisão e nós podemos dormir descansados porque não temos nada a ver com isto – mas não é verdade. A pessoa cometeu um ato incompreensível, é julgada, vai para a prisão e parece que fica resolvido. Por isso, elas perguntam em cena porque é que continuam a surgir casos. É porque alguma coisa está mal. E, no tempo em que estamos, existe esta ideia de que talvez seja preciso destruir para poder voltar a imaginar outra possibilidade. Parece – parece – que isso será necessário para podermos ver, juntos, uma nova forma.
Sim, achávamos que estava garantido assim. E, mais uma vez digo, não alinhamos em discursos antissistema ou de destruição das instituições e da democracia, mas esta nossa ruína final no espetáculo é um pouco simbólica. De facto, espero que não tenhamos de chegar à ruína para descobrir um novo caminho, mas também não podemos fugir a esse sentimento de alguma impotência com que convivemos agora perante o que está a acontecer. Como fazemos este espetáculo em 2026, é difícil não imaginar aquilo que a Gaya diz no fim: a luz ao fundo do túnel, se calhar, é só um comboio a vir na nossa direção… e vamos ter de ser atropelados. Esperamos que não, mas parece que é o que vai acontecer.
O colchão que ocupa toda a cena dá-nos essa ideia de que, a qualquer momento, o lugar que se pisa se pode esvaziar. Desde o início, dá essa iminência de instabilidade, de alguma coisa que irá ruir. E depois acaba mesmo por ruir por força daquilo que elas fazem, daquilo que mostram à Justiça, mas também com ajuda, em parte, da própria Justiça. É como se ela percebesse que vamos ter de ir ao grau zero para voltar a ter essa capacidade de imaginar.
Não queremos localizar estas figuras num tempo específico, queremos pô-las mesmo como figuras que estão aqui a performar a Justiça e que, de alguma maneira, sentem que isto não está a funcionar. Figuras que estão nessa missão de mostrar à criança – enquanto símbolo de Justiça – que isto não está a funcionar. São mulheres de hoje, talvez um bocado enfurecidas…
Não é uma fúria gratuita, é uma fúria com vontade de mudança. Embora sintam que vamos precisar de ruir para construir. Mas sempre nessa tentativa de que alguma coisa surgirá.
Tem uns excertos do Nuno Pinheiro, que esteve a fazer apoio à dramaturgia, e tem uns excertos da Teresa Coutinho e da Gaya de Medeiros, principalmente nas personagens que fazem. Cheguei aos ensaios com uma primeira versão, mas foi uma escrita muito colaborativa, porque o guião foi mudando, foi muito feito depois do encontro com elas e dos problemas concretos que iam surgindo.
Não dirigi assim tantos espetáculos, mas todos foram só com mulheres. E com esta opção assumida de ser uma perspetiva feminina e feminista. Sinto esta vontade de falar sobre temas que não estão no espectro daquilo que normalmente é associado ao feminino. Aqui estamos a pensar sobre a Justiça. Parece que ao longo da história, como criadoras, é estranho irmos a esses grandes temas, como a Justiça, a Morte, o Amor, o Poder, a Política. É sobre isso que quero trabalhar e não só sobre o cuidado, a maternidade, a vida doméstica, a violência doméstica, a maternidade per si. Acabamos por também falar disso aqui, mas não é sobre isso o espetáculo.
Existia uma vontade de formar um grupo diverso. Há grande parte da equipa que vem do meu projeto anterior [Madalena, 2021]. Nunca tinha trabalhado com a Gaya, e com a Teresa tinha só trabalhado como atriz com ela a dirigir. Tem sido um enorme prazer. Um processo muito feminino e feminista, porque isto de dizermos que somos feministas não se deve ver só nos temas sobre os quais escrevemos ou de que queremos falar, mas também na própria organização, na maneira como nos encaixamos. Nesse sentido, também procuramos encontrar uma forma de funcionamento nossa e não das referências que conhecemos e que normalmente são de organizações patriarcais masculinas. Mesmo no exercício da liderança ou até nos horários dos ensaios. Conseguimos criar um território seguro. Isso é muito fortificante. Sentimos que não estamos sozinhas, que nos vamos contagiando e fortalecendo mutuamente para outros combates do dia a dia. Claro que também existem homens na equipa, não há aqui nenhuma coisa sexista, mas é um espaço de mulheres. Procuramos que seja um espelho da maneira como achamos que se pode criar com uma referência feminina.
No caso da Teresa e da Gaya há um trabalho evidente de ativismo, mas as outras atrizes, mesmo não tendo um trabalho de criação com este pendor ativista, são atrizes altamente implicadas no que se quer dizer e como se quer dizer. Não são apenas intérpretes. E isso para mim é muito mais válido e prazeroso. Quando se trabalha assim colocam-se hipóteses que quando estamos sozinhas não colocamos.









