Marcos da Silva Freire

Marcos da Silva Freire


Em uma entrevista, o coreógrafo Marco da Silva Ferreira discute seu processo de trabalho, as influências que o moldam e a importância de explorar diferentes formas de comunicar as ideias subjacentes ao ato criativo.

A militarização é governada por um coletivo ordenado, com uma missão e uma estrutura que incluem códigos de uniformização, criando a sensação de que esses corpos são réplicas que formam uma unidade. Em contraste, a militância está relacionada a causas sociais e movimentos de transformação, sendo mais caótica e dispersa. Neste projeto, Ferreira propõe que a militância que ele promove é aquela que requer uma visão clara e um sistema organizado, enfatizando que a militarização pode ser uma ferramenta em prol da justiça social. Ele menciona o 25 de Abril, uma revolução de início militar, como um exemplo da complexidade entre militarização e militância, defendendo que essas questões vão além da dicotomia entre o bem e o mal.

A escolha do elenco é um aspecto fundamental da nova criação. Os bailarinos não são apenas interpretes, mas representam identidades que pertencem a comunidades queer. A dança e as palavras usadas criam um espaço de crítica e reflexão, onde a coreografia, embora altamente estruturada, permite que os corpos se expressem de maneira mais livre e fluida. Ferreira busca apresentar um coletivo organizado que, embora se assemelhe a um exército queer, não perca a essência dos trejeitos que são poderosos em sua mensagem.

“Estes corpos estão mesmo a ferver (…) de intimidade e paixão, que é algo de que precisamos muito

A seleção dos sete bailarinos que se juntam a ele no palco foi feita com base em critérios específicos. A escolha não se restringe apenas à técnica; é essencial que os bailarinos tenham experiência em danças verticais ligadas ao clube, dado que a cultura do clubbing tem uma forte conexão com a comunidade LGBTQIA+. Além disso, leva-se em conta a identidade e o lugar de fala de cada bailarino, assim como sua capacidade de trabalhar em harmonia dentro do grupo.

Cada bailarino pode representar uma espécie de alter-ego do coreógrafo, pois a peça tem motivações autobiográficas que permitem que diferentes personalidades reflitam diversas fases de sua vida. O conceito de um palco quadrifrontal evoca a ideia de um holograma que se refrata, onde os bailarinos atuam como fragmentos e ampliações de sua identidade.

Ferreira acredita que o slogan “make love, not war” pode ser utilizado, mas menciona outro que aparece na peça: “we bring no guns, only bodies on fire“. Este novo lema destaca a intensidade e a paixão que ele busca transmitir através da dança, algo vital no momento atual.

Sobre o ciclo de dez anos de trabalho coreográfico, Ferreira menciona que durante esse tempo não pôde parar para sentir as mudanças. Ele espera que, num futuro próximo, consiga desacelerar e repensar sobre os próximos dez anos de sua carreira, enfatizando a importância de acreditar no processo e no trabalho, mesmo que às vezes vá “às cegas”. O discurso de Pina Bausch – “dancemos primeiro e pensemos depois” – ressoa de maneira diferente para ele após uma década de experiências.

A primeira coisa que veio em sua vida, tanto nos palcos quanto fora deles, foi sentir-se aceito pelos outros, antes de se aceitar totalmente como é.

O encontro com o filme Beau travail (1999), de Claire Denis, ocorreu em 2017 ou 2018 através de um amigo, o cineasta Jorge Jácome. Ferreira já trabalhava em Bisonte (2019) quando começou a refletir sobre temas como virilidade e masculinidade, e se identificou com a maneira como o filme retrata a vida em conjunto entre os personagens, que ecoa sua experiência com os bailarinos. A sensibilidade de Denis ao filmar os corpos e a relação entre eles foi uma inspiração que ele trouxe tanto para Bisonte quanto para F*cking Future.

“Como dizia Pina Bausch, dancemos primeiro e pensemos depois.”

A desinibição inerente ao ato de dançar transforma-se em um gesto político quando a sociedade tenta reprimir essa expressão. Dançar se torna um ato político nas redes sociais, nas leis e nas proibições, e isso provoca a necessidade de dançar com ainda mais intensidade.

Ferreira acredita que a melhor resposta ao estado das coisas é resistir por meio da expressão autêntica do que somos. Embora a rebeldia seja importante, é preciso evitar a destruição sem propósito. O equilibrar entre ler contextos e entender o impacto de nossas ações é fundamental. Ele valoriza a autenticidade, mas também a capacidade de se adaptar ao que cada situação permite, reconhecendo que, muitas vezes, o humor é uma ferramenta mais eficaz do que o choque.

Ele já está trabalhando em seu próximo projeto, com uma estreia marcada para maio com a companhia alemã Tanzmainz. A nova peça, chamada Sugar Rush, explora a ideia de que o fruto do trabalho resulta em algo divino, simbolizado pela produção do vinho a partir do pisar das uvas, refletindo sobre a relação entre trabalho e recompensas.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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