Júlio Pomar costumava dizer que este lugar tinha “um ar de felicidade” em seu interior. A verdade é que, no número 7 da Rua do Vale, sempre se viveu e cultivou essa alegria, que o artista expressava sempre que aqui entrava. “A vida do Atelier-Museu Júlio Pomar foi uma vida de celebração à porta do pintor, que morava ao lado. Foi uma celebração em vida. Este centenário é, portanto, uma continuidade dessa celebração”, destaca Sara Antónia Matos, diretora e curadora do museu desde a sua inauguração em 2013.
Ao longo deste ano, haverá diversas festividades para comemorar o centenário de Pomar, que faleceu em 2018. O tema central foi oferecido pelo próprio pintor, não apenas em seu trabalho, mas também em sua vida. “O princípio do nosso programa é pensar nas possibilidades que se abrem. Foi Júlio Pomar quem nos ensinou a fazer isso, a olhar para frente e a refletir sobre o que virá. É esse legado que queremos perpetuar: não limitar o museu à sua obra, mas, ao contrário, abri-lo à contemporaneidade. Celebrar seu legado é perceber que ele nos deixou pistas para entender a atualidade”, ressalta Sara, lembrando que o pintor também foi autor de textos sobre arte, poesias e letras de fados, além de ter desempenhado um papel intelectual, social e político importante – sempre de forma irreverente.
O interesse de Júlio Pomar, que teve uma carreira de mais de 70 anos e morreu aos 92, pela arte das gerações mais novas será celebrado em diversas iniciativas. Uma delas é o prêmio que o Atelier-Museu concederá, com o apoio de Tereza Martha, viúva de Pomar, a um artista do campo da pintura que se destaque por sua inovação no contexto da arte contemporânea. “Pomar foi um construtor da história da arte, inovando estilos, metodologias de trabalho, temas e tipos de representações… Queremos celebrar o que perdura e que os artistas mais jovens continuam a desenvolver”, enfatiza a diretora.
Nessa mesma lógica, o artista Gabriel Abrantes foi convidado para inaugurar, no dia 23 de setembro, a exposição Pintura – Pintura, que oferecerá um olhar sobre a obra de Júlio Pomar através de diversos meios, desde os mais tradicionais até a Inteligência Artificial. “Considero Gabriel Abrantes um dos artistas mais irreverentes da atualidade, pois utiliza as técnicas mais inovadoras. Ele buscou as figuras de Pomar e escolheu trabalhar com aquelas que possuem um tom irônico, mordaz e com uma crítica social implícita. Acredito que ele é herdeiro desse olhar irônico, controverso e inesperado que caracterizou o pintor”, afirma Sara Antónia Matos.
A exposição Pintura-Pintura será acompanhada por ciclos de conferências. Também a companhia de teatro Cão Solteiro, celebrando 30 anos, fará uma reflexão sobre o que significa uma data de celebração: nos dias 11 e 12 de abril, apresentarão uma performance com Sara e André.
A exposição antológica que marca este centenário será inaugurada em 6 de maio. A cola não faz a colagem foi o título escolhido por Sara Antónia Matos em parceria com os outros dois curadores, Pedro Faro e Constança Pupo Cardoso. “A colagem atravessou toda a obra de Júlio Pomar. Não apenas no período em que ele realizava colagens propriamente ditas, mas também como uma ideia presente. Isso é notável até em sua fase final, quando utilizava tintas para criar várias camadas e sobrepor figuras. A ideia de colagem e sobreposição está sempre presente.” Em outras palavras: “Aglutinação, junção de planos, sobreposições de partes, elementos, ícones, simbologias, figuras, cores e traços, mesmo que à primeira vista essas junções possam não parecer fazer sentido. O que está em questão é um jogo livre de associações, através do qual o pintor persistiu em sua busca por liberdade e criação.”
Este centenário também servirá como pretexto para o lançamento do terceiro volume do Catálogo Raisonné de pintura, além de outras publicações, incluindo os Relatórios de Bolseiro. O museu, que tem apresentado o trabalho de Pomar por todo o país, planeja, em parceria com o Instituto Camões, levá-lo a várias embaixadas portuguesas e outros equipamentos culturais. Além disso, estabeleceu uma parceria com a Wikipédia e a Google Arts para difundir seu legado.
Gerenciando, até agora, cerca de 400 obras de Júlio Pomar, o Atelier-Museu concluirá o processo de cessação da Fundação do pintor, iniciado há dois anos, que previa a entrega de todo o seu acervo à Câmara Municipal de Lisboa. A partir de agora, serão mais de mil as obras de Pomar na coleção do museu. “Isso amplia exponencialmente nossas possibilidades de trabalho”, conclui Sara Antónia Matos. Ideias não faltam e, como se sabe, irreverência e felicidade também estão garantidas.









