Neste vasto acervo que representa os “fados tradicionais” – que continuam a ganhar novas letras ao longo do tempo – Armando Machado se destaca não apenas pela quantidade, mas especialmente pela qualidade das melodias que nos deixou. Essa herança circula livremente, permitindo que poetas e fadistas a levem para novas direções, transformando-se sempre em um ponto de partida fresco.
Armando Machado compôs fados memoráveis como o Fado Santa Luzia, Fado Súplica, Fado Cunha e Silva, Fado Licas e Fado Cigana.
Uma das suas melodias mais belas e complexas é o Fado Maria Rita, amplamente conhecido nos círculos fadistas, que foi dedicado a uma de suas filhas.
Maria de Lourdes Machado, sua esposa, gravou a canção “O meu colar”, e com o passar do tempo, muitos fadistas adaptaram este fado, tornando-o seu.
O renomado mestre António Rocha criou “Procura vã”, que ele mesmo interpreta, mas já possui diversas versões de outros fadistas.
António Zambujo associou palavras de Mário Rainho – “Jogo de Sedução” – a esta melodia.
Diogo Clemente compôs “Antes que digas adeus” para a voz de Sara Correia.
Ricardo Ribeiro interpretou “Mas porquê de eu ser assim” de António Cruz.
Eu também tive o privilégio de compor “Num gesto que se adivinha”, que na interpretação de Armando Machado foi extraordinariamente cantada por Kátia Guerreiro.
É mais fácil para mim falar sobre melodias para as quais já escrevi letras. A batalha entre a música e o letrista busca compreender quais palavras se encaixam naquela melodia, e nesse processo, essas linhas melódicas se tornam íntimas, revelando particularidades sobre nós que antes desconhecíamos.
As músicas de Armando Machado estão repletas de histórias. O letrista deve parar para ouvir essas narrativas e traduzi-las para seu próprio idioma, um idioma que ele compartilha somente com a voz do intérprete das palavras que ele ousa escrever.
Foi isso que Carminho fez em sua nova interpretação do Fado Maria Rita, ao escrever para o disco de Rosalía um poema atemporal (ou talvez seja melhor chamá-lo assim, pois para poetas e letristas, “atemporal” e “intemporal” são quase sinônimos). A fadista já tem feito isso há algum tempo, e em seu último disco, ela definitivamente vence o tempo, criando um fado contemporâneo que ecoa todas as vozes do passado.
Todas as que ainda estão por vir.
Quando foi anunciado que Carminho participaria no disco de Rosalía, ninguém supunha que ouviríamos numa melodia tradicional de Fado. Carminho possui essa ousadia. Ela sabe que o passado pode também ser o futuro. Por isso, ela escreveu versos que poderiam vir de qualquer época, que podem destino a qualquer tempo.
Tudo aquilo que parece ser destino na obra de Carminho é, na verdade, um ponto de partida para o que não se sabe ao certo o que será. Talvez nem ela saiba. Talvez a descoberta esteja no ato de criar.
Há um “r” que separa “carminho” de “caminho”. Tudo na arte de Carminho é uma jornada. Assim, neste deslumbrante “Memória” que ela e Rosalía interpretam, as duas vozes emanam do mesmo lugar, da mesma busca. Não é um dueto; é um monólogo a duas vozes. Elas se dirigem a nós, nos convidando a não sermos prisioneiros do Tempo. Carminho nos oferece a maior liberdade… que é a liberdade de simplesmente ser!
Somente quem é totalmente de algo pode ser completamente de outro aspecto, e Carminho é plenamente do Fado. Isso lhe concede a liberdade de se lançar em qualquer outra direção que sua alma artística deseje explorar. Com esta gravação, a sublime fadista projeta o Fado Maria Rita para um futuro distante, assegurando sua continuidade além dos nossos filhos e netos. O Fado Maria Rita, com esta gravação, consegue, por si só, vencer o Tempo.
Há muitos anos, escrevi uma letra para a voz de Carminho, com música de Rão Kyao, que hoje em dia parece quase uma profecia. Agora, Carminho “é igual aos seus sentidos/e o tempo igual ao espaço”.
Não é uma coincidência que duas artistas com almas repletas de curiosidade, modernidade e tradição, nasçam na mesma época, possam trocar ideias, somar angústias e explorar perplexidades na obra uma da outra.
Nós, como privilegiados, testemunhamos a magia desta colaboração que se desenrola diante de nós, para o deleite de nossos ouvidos, almas e corações.
Deve haver um deus qualquer nesta narrativa. É impossível que não exista. Carminho se aproxima cada vez mais desse espaço “onde o tempo é igual ao espaço”. Em cada canção, em cada melodia, em cada poema, ela nos questiona se queremos acompanhá-la. Estamos prontos para essa jornada?









