Verdes Séculos e Impressões de Carlos Paredes em Lisboa

Verdes Séculos e Impressões de Carlos Paredes em Lisboa

Ocorreu em Sete Rios, na interseção da Estrada de Benfica com o Jardim Zoológico, no coração do bairro de Alvalade. Para quem conhece Lisboa, a inclusão do nome Alvalade pode parecer curiosa.

É verdade que essa esquina se encontra a cinco quilômetros, a uma hora de caminhada acelerada até o célebre bairro… Mas isso é apenas uma leitura desatenta de um mapa, uma discussão sobre códigos postais. O que realmente me interessa é a visão que me surgiu em Sete Rios, a assombração da melodia dos Verdes Anos, que se seguiu e me envolveu. Aquela esquina, argumente o leitor como quiser, é Alvalade profundo. Deixe-me explicar.

Em meados da década de 1980, eu observava pela janela do autocarro a caminho dos arredores de Benfica, passando pelo lado esquerdo do Jardim Zoológico, em um trânsito de fim de tarde, em hora de pico.

Comecei a ver uma figura de costas, caminhando ao lado do muro de alvenaria e da grade de ferro forjado do Zoo. Ele parecia triste, percebi isso antes mesmo de ver seu rosto. Provavelmente vinha do Hospital de São José, onde trabalhava, e seguia para casa.

Quando o autocarro o ultrapassou lentamente, percebi seu perfil com cabelos bagunçados, uma testa larga, um nariz forte, boca e queixo notáveis, até mesmo seus óculos robustos. A tristeza que exibia era evidente, uma tristeza bela, digna como os dedos de um guitarrista. Reconheci-o, é claro.

Alguns metros à frente, foi ele quem me ultrapassou enquanto o autocarro estava parado no engarrafamento. Eu já o esperava, desejando vê-lo novamente aparecer na altura do meu ombro direito – o muro do Zoo se estendia por um bom trecho. Talvez o nosso encontro com Carlos Paredes se repetisse na tarde. Eu queria que aquele encontro fosse novamente algo pessoal, marcante, que fizesse eco, como uma única nota. Aquela nota.

Sendo a guitarra um instrumento transpositor, a guitarra de Coimbra afina um tom abaixo.

Assim foi. Assim que o reconheci, a nota ressoou novamente. Vi-o, a ele, e ouvi um Ré.

Ouvi essa nota, seguida por uma das mais belas canções portuguesas. Sem palavras, apenas imagens em preto e branco de Alvalade, com tons cinzentos característicos de um filme dos anos 60.