Chamemos-lhes monstros – porque é exatamente assim que os outros os veem. São seres diferentes, usados para instigar o medo nos restantes e sobre quem recaem preconceitos e discursos de ódio. Viver em harmonia com eles parece impossível. Poderá alguma vez existir diálogo entre eles e nós? Mas serão eles assim tão diferentes de nós? E, sendo diferentes, será isso um problema? Sobre isso fala o novo espetáculo de Pedro Baptista, Whisky & Chips, em cena no TBA – Teatro do Bairro Alto, de 12 a 15 de fevereiro.
A peça começa quando duas dessas monstruosidades decidem revelar aos novos vizinhos de cima essa sua característica, na esperança de que as vejam para além disso. Na sala das anfitriãs, reúnem-se para jantar todas as personagens desta história (interpretadas por Ana Valente, Ana Valentim, José Pimentão, Mário Coelho e Odete). Depois disso, a noite segue a uma velocidade vertiginosa. Um serão feito de revelações e confissões, de lamentos e memórias, de acusações e incompreensões, de empatias e rejeições. Tudo, diga-se, com a melhor banda sonora, que vai de Charli XX a Puccini e ao Rei Leão, num encontro onde se ouve Dancing with myself, mas também Can you feel the love tonight ou One Moment In Time e até se faz karaoke de As Baleias, do grande Roberto Carlos.
“Quis olhar para a perpetuação dos ciclos de violência. Acredito que cada pessoa transporta as suas feridas e que é difícil não estar sempre com armas. É o lado nervoso da condição humana, sempre um motor de sofrimento. E fica tudo minado. Muitas vezes, já nem se sabe onde começou a tensão, o que esteve na base da discussão que perpetuamos”, afirma o dramaturgo e encenador. A complexidade das relações mostra-se ao longo do jantar naquele espaço onde coabitam seres vistos como monstros e outros tidos como não-monstros. “Precisamos de uma espécie de reorganização energética, que parece inatingível. Será possível chegarmos a um sítio em que suspendamos tudo durante um bocadinho e fiquemos numa paz coletiva?”, interroga-se Pedro Baptista.
Em cena, há de garantir-se que o que se procura não é aceitação, mas sim respeito, há de falar-se de luta, de resistência e de persistência. “Não somos assim tão diferentes. Ou somos, mas está tudo certo”, reitera o encenador, lembrando que, não raras vezes, aquele que é visto como diferente integra essa acusação. “Se sou o monstro, vou apropriar-me da minha monstruosidade e torná-la num poder, mais do que numa arma.” Depois dos solos Orações do veado sereio (2021), Orações (2022) e Pássaro de Fogo (2025) e também da peça Anima (2022), Pedro Baptista acredita que este espetáculo poderá encerrar, de alguma forma, um caminho mais autobiográfico. “Não sei o que virá depois, mas sinto que estou numa passagem para outra coisa.”
Para si, Whisky & Chips resultou “numa espécie de comédia ácida e macabra”. “Penso muito no humor como um mecanismo de sobrevivência ou uma arma política. Aqui acho que se junta a comédia, o drama e talvez a tragédia. Uso um humor mais rasca e outro mais refinado, gosto de jogar com todas essas dimensões e contrastes, de convocar as multitudes e de as pôr em comunhão de forma orgânica.” Talvez por isso se junte no título um refinado whisky e umas corriqueiras chips. Afinal, nesta “festa”, whisky nem vê-lo e o espumante quase não chega a ser bebido, já o pacote de batatas fritas acaba praticamente intocado, tal como o saco de gomas, a embalagem de pequenos queijinhos e as massas udons. De tudo o resto que acontece durante as duas horas de espetáculo, diz-nos o prazer de ver uma peça de teatro pela primeira vez que o melhor será não se contar mais nada. Uma coisa é certa: haverá muito sangue, algum suor e uma certa tentativa de lágrimas. Haverá sobretudo amor e uma grande vontade de abraçar.







