Com Duas Mãos

Com Duas Mãos


Criar a dois é um exercício de escuta, negociação e risco. Quando a relação artística se cruza com uma relação afetiva, o processo criativo deixa de ser apenas um espaço de trabalho para se tornar também um território de intimidade, confronto e construção partilhada. Entre cumplicidade e fricção, estes diálgos revelam como a criação compartilhada pode ser, simultaneamente, um lugar de abrigo e de desafio – e como, nesse espaço, surgem novas formas de pensar, fazer e habitar a arte.

A colaborar desde 2006, a dupla de artistas Sofia Dias e Vítor Roriz, impulsionada pela curiosidade e pela necessidade de experimentação, é responsável por diversos espetáculos, performances, faixas sonoras, vídeos, podcasts e instalações, onde são explorados diferentes contextos e desafiados os limites entre áreas artísticas. Até 12 de fevereiro, levam ao Lu.Ca – Teatro Luís de Camões Uma partícula mais pequena do que um grão de pó, espetáculo para os mais novos que questiona o que aconteceria se todas as máquinas parassem.

Sofia Dias “Começámos a trabalhar juntos numa companhia na Suíça, mas uma certa insatisfação em relação a esse trabalho artístico fez com que nos pusessemos a fazer coisas à parte no estúdio e em casa. Improvisámos muito na nossa sala de jantar e fomos construindo um mundo criativo em comum. Acabámos por voltar para Lisboa, onde decidimos continuar o nosso trabalho individual enquanto intérpretes e, ao mesmo tempo, trabalhar em dupla, já que queríamos que este fosse o nosso lugar de liberdade. E até hoje acho que conseguimos sempre manter essa liberdade de experimentação e não ceder só à produção de espetáculos. O nosso trabalho acaba por ser muito tentacular, porque temos vindo a explorar outros espaços para além do teatro, como o museu, a floresta, a cidade, cruzando formatos, contextos e públicos. E penso que a razão pela qual nos permitimos arriscar tanto é porque, apesar de tudo, estamos ali um para o outro. É totalmente diferente arriscarmos sozinhos ou arriscarmos a dois. Isso é muito libertador.”

Vítor Roriz “Eu e a Sofia não temos uma metodologia muito fechada quando trabalhamos. O que há é uma grande confiança no outro e um processo baseado na prática. Qualquer proposta é aceitável, não é preciso estar a justificá-la, o que é preciso é experimentá-la. E ao atravessarmos as ideias um do outro surgem outras coisas quase sempre mais interessantes e que resultam do encontro das nossas sensibilidades tão próximas e, ao mesmo tempo, tão diferentes. A única coisa que não é totalmente partilhada é a composição sonora que, desde o início da nossa colaboração, é a Sofia que faz. Mas estamos sempre a falar um com o outro, o que é curioso tendo em conta que passamos mais tempo juntos do que separados. Falamos sobre o estado do mundo, sobre as coisas de que gostamos e não gostamos, sobre a nossa ética profissional e diária. Mas quando vamos para o estúdio tentamos trabalhar sobre aquilo que existe naquele momento, naquele presente e sobre o que surge de mais um encontro entre os dois.”

Sissi e Ruben são dois nomes de referência no teatro musical em Portugal. Começaram por partilhar palcos antes de partilhar a vida e, em 2022, juntamente com Martim Galamba, fundaram a MTL – Musical Theater Lisbon, associação que tem como objetivo potenciar o teatro musical no nosso país e estabelecer aqui uma base da Broadway. Em março, levam ao Teatro Variedades In the Heights, um dos mais aclamados e premiados musicais da Broadway da atualidade. Emmaio, a produção Rent volta a Lisboa, desta vez ao Auditório dos Oceanos, no Casino Lisboa.

Sissi Martins “Ainda antes de sermos um casal, percebemos que tínhamos muita química em cena, havia sempre um jogo que era muito fácil com o Ruben. Depois chegou a relação e esse jogo fácil entre nós continuou. Agora, formamos uma equipe incrível, tanto na vida pessoal como profissional. E se há pessoas que questionam se não nos cansamos de estar juntos, respondo que não, pelo contrário, porque, enquanto para alguns é difícil verbalizar em casa os problemas do trabalho, nós compreendemo-nos, porque partilhamos o processo. O diálogo e as diferentes visões que temos são muito favoráveis à criação artística. Há sempre uma picardia positiva que nos faz sair da zona de conforto e dar mais. E enquanto há quem tente melhorar-se a si próprio, nós encontramos isso um no outro. O Ruben é muito diferente de mim, mas eu sei que sou muito melhor por causa dele.”

Ruben Madureira “Penso que somos uns sortudos, porque é preciso alguma sorte para, no labirinto que é este mundo tão vasto, encontrarmos uma pessoa que nos veja com a mesma simplicidade de uma coisa complexa. Há entre nós uma admiração mútua que nunca se esgota. Fico mesmo admirado e apaixonado, apaixono-me cada vez que vejo a Sissi a fazer coisas, e sinto que ela também vê o mesmo, porque conhecemos o processo, sabemos as dificuldades desta área. A admiração contribui para nos espicaçarmos. Apesar de não sermos nada parecidos no que respeita ao trabalho e de termos visões diferentes, acabamos por nos organizar bebendo água das duas fontes. Quando estamos a fazer um projeto e o diálogo surge, é sempre enriquecedor, ainda que nem sempre harmonioso, mas faz parte.”

Rita Redshoes, cantora, compositora e multi-instrumentista, conta com uma carreira a solo e com participações em diversos projetos, como Rita & Os Usados de Qualidade. Bruno Santos, guitarrista, também colabora em diferentes propostas musicais, e com o irmão André, forma os Mano a Mano, banda que mistura jazz, pop, rock e folk. De vez em quando, Rita e Bruno sobem juntos ao palco. A 25 deste mês, juntamente com Romeu Tristão (contrabaixo), o casal leva o espetáculo Songs from old movies ao Tábula Jazz Club.

Rita Redshoes “Eu e o Bruno vimos de universos musicais diferentes – eu do pop rock e o Bruno do jazz -, que são linguagens musicais com pontos em comum, mas também com grandes diferenças. Na pop, há uma maior produção, é tudo alinhado e organizado, enquanto no jazz é tudo mais à flor da pele, tudo muito com base no improviso. E as colaborações artísticas que temos feito, que são pontuais, têm servido para questionar algumas formas de trabalhar. Essa liberdade que há no universo do jazz inspira-me muito. Ali, tudo é em bruto e gosto disso. Na música, cada um de nós vai fazendo o seu caminho, que se cruza só de vez em quando, e acho que é saudável. Caso contrário, pode até tornar-se monótono.”

Bruno Santos “As nossas colaborações têm surgido de forma natural e fluida e, como só acontecem pontualmente, nunca chegamos ao ponto de andar às cabeçadas. Assim, há sempre uma certa frescura e nunca atingimos um ponto de tensão. É importante cada um de nós ter os seus próprios projetos, até para mantermos alguma distância. Mas, claro, o nosso trabalho em conjunto influencia sempre a minha atividade individual, porque quando toco as canções da Rita, nem que seja pelo facto de me expor a uma situação que me é estranha, questiono o que não questionaria se estivesse sempre a tocar no mesmo registo, e até vejo algumas coisas de maneira diferente, porque estamos sempre a receber informação que nos vai moldando e ajustando.”

A colaboração artística entre a dupla de curadores João Mourão e Luís Silva começou oficialmente em 2009, com a fundação da Kunsthalle Lissabon, que nasceu com o objetivo de explorar e reimaginar modelos institucionais. Com exposições trimestrais, a Kunsthalle promove relações interdisciplinares no mundo da arte – ligando artistas, curadores, diretores, colecionadores e críticos. Até final deste mês, apresenta Luso-portugueses, do artista René Tavares, que reúne um novo conjunto de obras concebidas especialmente para aquele espaço.

João Mourão “A nossa colaboração artística começou porque nós, jovens curadores na altura, pensávamos da mesma forma as necessidades para a cidade. Quando criámos a Kunsthalle Lissabon já tínhamos algumas ideias muito precisas do que gostaríamos de mostrar na sociedade. E, claro, falamos muito de diálogo, de como isto, de algum modo, define o nosso trabalho. Como ele, para além das definições curatoriais e de programação, ou do modo como fazemos e com quem fazemos, se foi instituindo também no modo de trabalhar dentro da própria Kunsthalle. E esta ética que partilhamos, tanto em questões de trabalho como na forma como nos relacionamos, é algo que, enquanto dupla curatorial, nos acompanha sempre, seja dentro ou fora da Kunsthalle.”

Luís Silva “Sabíamos que tínhamos muitos interesses em comum, uma ética semelhante e os mesmos objetivos profissionais e, a pouco e pouco, trabalharmos juntos começou a tornar-se uma inevitabilidade. Desde o início foi muito claro para os dois que há coisas em que um é melhor do que o outro. E, se assim é, não vale a pena contrariar. A parte criativa é completamente partilhada; as decisões são tomadas em conjunto e são resultado de muito diálogo. Aliás, uma das melhores coisas de trabalhar em dupla é o diálogo constante. E não sei se é uma idiossincrasia, um acaso ou pura sorte, mas nunca entrámos em conflito. Conseguimos sempre antecipá-lo e desmontá-lo antes de acontecer. Acho que há uma romantização do conflito como uma força produtiva, mas nós tendemos a não acreditar muito nisso.”

Meggie Prata e Francisco Leal são o Los Pepes Studio, uma dupla que cruza artes plásticas e design num trabalho arrojado, geométrico e repleto de padrões. A cor, para eles sinónimo de felicidade, surge como um elemento recorrente num trabalho que combina murais de arte urbana pintados com spray e designs criados digitalmente. A intenção é espalhar pensamentos e sentimentos positivos por todos os que observam as suas obras. Os seus murais podem ser apreciados em vários locais da cidade, do Amoreiras 360º Panoramic View às freguesias de Santa Clara e de Santa Maria dos Olivais, por exemplo.

Meggie Prata “Inicialmente, talvez eu tivesse um trabalho mais gráfico e o Francisco um trabalho mais experimental de pintura. Entretanto, ele começou a entrar nos meus desenhos, e mais tarde, eu nos dele, e organicamente acho que criámos uma equipa. A discussão gráfica, que ainda existe hoje, passou de individual para conjunta; evoluiu para um trabalho mais coletivo. No fundo, procuramos transmitir um ao outro as competências em que individualmente mais nos destacamos. Aliás, conseguimos concordar em 0% das coisas; temos ideias diferentes em quase tudo. Creio que, por isso, puxamos um pelo outro. Se conseguimos criar um universo comum é porque nos queremos e respeitamos muito. O Los Pepes é o sítio de encontro das ideias dos dois.”

Francisco Leal “Quando trabalhamos juntos fazemos-no sem grandes regras, sem muitas coisas pensadas, não temos uma distribuição de papéis: em casa sim, mas no trabalho não. A divisão que acaba por existir baseia-se em quem se sente mais confortável a fazer determinada coisa. E claro que, ao produzirmos em conjunto, o nosso trabalho e método individuais acabam por ser “contaminados” pelo outro. Eu sou mais freestyle e, se não trabalhasse com a Meggie, que é uma pessoa super organizada, nunca na vida iria cumprir um esboço ao milímetro. E acho que isso é o comprometimento, que tem de existir dos dois lados. E é essa, também, a razão pela qual a nossa equipa tem uma força muito grande.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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