Quim Albergaria (QA) – A origem do nome Bateu Matou está relacionada com o mundo da dança. Ele surge no contexto de pessoas que se expressam através da dança, capturando aquele toque especial na pista que tanto alegra. Um som, um beat, uma música, um passo de dança que “bateu” ou “matou” representa algo que é altamente apreciado nos bailes. É também um pouco sobre a confiança daquele que chega e se apresenta para brilhar. Bateu Matou nos pareceu um nome perfeito.
Riot – A verdade é que ainda estamos a descobrir como manter isso sob controle [risos]. Quando começamos a trabalhar juntos, a preocupação em equilibrar a batida e a melodia surgiu antes mesmo de montarmos as baterias. Esse desafio é realmente divertido: como é que três bateristas conseguem pensar como músicos melódicos e harmônicos? É um grande desafio. Assim como qualquer trabalho, é um processo de aprendizado, onde ouvimos muitas maquetes e analisamos o que está certo ou errado. Tenho a sorte de estar com dois colegas incrivelmente musicalizados, e, para ser honesto, não foi tão difícil aprimorar isso rapidamente. Na verdade, foi mais rápido do que eu esperava encontrar a forma de evitar uma cacofonia caótica.
Riot – Nunca estamos totalmente em sintonia, e esse é o segredo. É isso que faz a mágica acontecer: nunca chegamos a um consenso [risos].
Ivo Costa (IC) – O nosso som é o resultado de três trajetórias musicais muito distintas. Isso é o que torna tudo tão interessante para mim, que sempre fui fã de várias dessas influências. Combinamos a eletrônica que o Rui [Riot] traz, com o punk do Quim e minha própria influência afro, resultante dos anos que toquei com a Sara Tavares… Quando estávamos buscando nossa identidade, percebemos que somos Lisboa. Um reflexo de uma mistura cultural rica. Acreditamos já existir um som característico que começou a ser moldado há 15 ou 20 anos com artistas como Sara Tavares, Buraka Som Sistema e Cool Hipnoise. Eu e Rui somos filhos de moçambicanos com ancestrais goeses, que já nasceram em Lisboa. O som de Lisboa é uma parte de nós. Fomos parte dessa evolução musical que surgiu desse cruzamento cultural, e, para mim, em Lisboa, isso resultou em um som absolutamente novo.
QA – O nosso trabalho com vocalistas é sempre variável. Por exemplo, na faixa Povo, a ideia veio do Hêber [Marques]. A música Dombolô, um dos nossos últimos singles, nasceu de uma ideia do Pedro da Linha, e um dia o Paulo Flores passou no estúdio e pedimos para ele ouvir e, assim, a colaboração aconteceu. Isso já se deu de várias formas diferentes.
IC – Algumas músicas que começamos a compor estavam naturalmente ligadas a pessoas que nos eram próximas e que aceitaram o convite, contribuindo para o nosso primeiro disco. Neste momento, estamos reconhecendo que o Quim, cada vez mais, tem se tornado a voz do grupo. Acredito que este terceiro disco traz um equilíbrio entre as duas abordagens.
QA – Colaborar com Paulo Flores era um sonho antigo, quase tão antigo quanto a própria banda. Pensar na união entre Bateu Matou e Paulo Flores me parece ofensivo, visto que o Ivo já colaborava e produzia para ele há muito tempo. Era apenas uma questão de encontrarmos a oportunidade certa. Esta canção parecia ter sido feita para ele; tanto que ele fez apenas dois ou três takes e a música foi construída a partir daquela gravação.
Riot – O modus operandi varia com cada canção, mas geralmente, ao trabalharmos em uma nova música, já temos uma ideia de quem deve cantar. Às vezes, pode ser um sonho fora de alcance, mas outras faz total sentido. Hoje em dia, estamos mais focados em ser um projeto autossuficiente, e estamos conseguindo. Para convidar alguém de fora, precisa fazer sentido; pode ser para alcançar uma nota que não conseguimos, ou por causa da textura vocal de alguém que encaixe mais na canção. Portanto, tem que haver uma razão muito concreta para colaborar com alguém de fora. O que dá prazer em Bateu Matou é que nosso som é tão aberto e eclético que pode incluir qualquer pessoa de qualquer estilo de música.
Riot – Isso nunca ocorreu. Tentamos trabalhar com algumas pessoas em que a dinâmica não funcionou, mas a música mudar completamente de direção nunca aconteceu.
IC – Temos conseguido acertar nesse aspecto, ou seja, a escolha do artista está se mostrando acertada porque ele se encaixa realmente na canção. Ninguém nunca transformou a música em outra coisa, creio que por essa razão.
IC – O primeiro disco, Chegou, teve a lógica de trazer convidados. O Batedeira foi um disco mais punk, mais voltado para dentro, onde Quim cantou mais e tivemos menos colaborações. Muitas músicas utilizaram samples que eram a voz principal, focamos mais no beat. Esse disco resultou de um ano de concertos e nos permitiu entender que precisávamos trazer um elemento mais orgânico e visceral. Este primeiro EP representa um equilíbrio entre essas duas abordagens. Reconhecemos que nossa identidade não é apenas sobre sonoridade ou ritmo, mas também sobre a voz do Quim, que se destaca mais. Acreditamos que nossa identidade está fortemente presente em nossa letra e mensagem.
QA – Optamos por lançar um EP por várias razões: as músicas estavam prontas e precisavam ser compartilhadas. Estamos criando momentos culturais ao redor da banda com uma residência na Casa Capitão, baseada em uma nova ideia de espetáculo, e precisávamos de novos conteúdos para atrair a atenção. Mas, acima de tudo, era uma questão de impaciência. As canções estavam prontas e precisavam ser lançadas. Temos outras quase prontas, que virão em breve. Isso é um reflexo dos tempos; não estou dizendo que o disco está em declínio, mas sim que a sua importância está diminuindo. Às vezes, é melhor reagir ao que está acontecendo de imediato e estar mais próximo das pessoas, pois esse é o objetivo da banda: construir algo que possa ser compartilhado e vivenciado. O EP1 reflete essa busca por proximidade, por levar música nova para as pessoas se sentirem bem e desejarem estar conosco. A música, afinal, não é sagrada.
QA – É um baile, por isso decidimos romper com o conceito tradicional de concerto à noite. Não queremos que o público pense que deve nos observar apenas. A ideia é criar um momento de conexão, onde a música serve como um meio de aproximação. Nossa música brilha mais quando estamos juntos das pessoas. Tivemos uma experiência incrível no Lux no ano passado, onde tocamos bem em meio ao público. Foi uma explosão de energia. Queríamos que nossos concertos fossem uma celebração dessa mistura e relação. Portanto, a proposta é virem cedo, trazerem suas famílias, comerem juntos e se desejarem, dançarem. Todos são bem-vindos, não importa a idade.
Riot – Esperamos que, para quem entrar na Casa Capitão e nunca ouviu Bateu Matou, essa pessoa sinta que não precisa pensar naquele momento. Queremos que a experiência seja uma explosão de ritmos, cultura e condições propícias para dançar. Sentimos falta de momentos assim. Para quem nos vê pela primeira vez, a ideia é que não esteja ali apenas observando; queremos que se juntem à nós, que dancem e se comuniquem.
IC – A música deve e pode ser uma forma de resistência, e cada vez mais nós, como músicos, devemos estar atentos. Temos essa responsabilidade de não sermos omissos e de expressar nossas opiniões sobre o que está acontecendo ao nosso redor.
QA – A música tem o poder de fazer as pessoas se sentirem vistas e ouvidas. Se conseguirmos reconhecer a realidade daqueles que estão ao nosso redor, conseguiremos diminuir a solidão, aumentar o reconhecimento e criar uma força de afirmação através dessa visibilidade. A música também democratiza, evitando distinções e aproximando as pessoas. A quantidade de pessoas que votaram no Chega, mas sabem dançar kizomba, é maior do que se imagina, o que torna a situação contraditória. Nossa missão é reconhecer e celebrar essas diferenças, criando uma plataforma onde todas elas possam se encontrar em um baile.








