No cume, distante das trivialidades

No cume, distante das trivialidades



A contraluz revela-nos uma silhueta: chapéu de cowboy na cabeça, botas e braços pendentes ao longo do corpo. Quando a peça de teatro Brokeback Mountain começa, já sabemos que a história não terá um final feliz – conhecemos bem sua narrativa através do filme O Segredo de Brokeback Mountain, que há 20 anos trouxe à tona um amor homossexual incapaz de se afirmar perante a sociedade. Agora, é Daniel Gorjão (com o seu Teatro do Vão) quem analisa esta complicada relação entre dois homens, aceitando um convite de Diogo Infante, diretor artístico do Teatro da Trindade, onde a peça estreará na quinta-feira, 19 de fevereiro. “Para mim, foi um filme muito marcante, que me acompanhou na transição da adolescência para a vida adulta. Acredito que há uma memória coletiva sobre ele. Portanto, é muito poderoso trazer este texto para o teatro”, afirma Gorjão. “As pessoas já conhecem a narrativa, mas têm vontade de revisitá-la. Foi um filme que ficou no coração de quem o viu, seja queer ou não.”

Tanto o texto dramático de Ashley Robinson quanto a longa-metragem de Ang Lee têm origem no conto de Annie Proulx, publicado em 1997 na revista The New Yorker. Na adaptação para o teatro, a história se concentra apenas nos momentos mais relevantes do enredo, quase como se fossem cenas soltas de um filme. Por esse motivo, na pequena Sala Estúdio do Trindade, Daniel Gorjão quis criar um ambiente de estúdio cinematográfico. “Imaginava um set de filmagens e foi a partir desse conceito que desenvolvi a cenografia. Um lugar onde coisas entram e saem, à vista de todos. Quis trabalhar o naturalismo do cinema e também a iluminação com um toque cinematográfico, algo que venho aprimorando nos meus espetáculos, com a colaboração de Sara Garrinhas, que aqui assume a direção técnica e o desenho de luz.”

A ação ocorre perto da plateia, em um chão branco que lembra uma tela de cinema. Um efeito prolongado com a projeção de vídeo ao fundo mostra a passagem do tempo pelo céu. Os atores que não estão em cena permanecem ali ao lado, sentados em bancos de madeira que também fazem parte do cenário. Assim como nós, eles observam o que ocorre naquele retângulo branco. “É muito tocante, enquanto encenador e também como alguém que vive o teatro, ter todos os atores em cena e, quando não estão atuando, estarem assistindo ao trabalho dos colegas. Há algo muito bonito nessa observação”, reflete Gorjão.

Quando Ennis Del Mar e Jack Twist (Duarte Melo e Rui Pedro Silva) se entregam um ao outro ou enfrentam a impossibilidade de um amor feliz, o restante do elenco (Carla Galvão, Joana Ribeiro e João Candeias) se torna tão atento e comovido quanto os espectadores na plateia. Seus olhares contrastam com os de quem, na narrativa, observa de fora a relação entre os dois homens, e também com os de quem ainda vê com desconfiança o amor entre pessoas do mesmo sexo. “A sociedade mudou desde que o texto foi escrito ou desde que o filme estreou, mas para mim este espetáculo trata do medo que as pessoas sentem em relação ao que a sociedade diz sobre elas. Não é sobre o amor em si, mas sobre o medo. E como esse medo pode sabotá-las, se não tiverem coragem de viver suas vidas plenamente. Em Brokeback Mountain, o amor existe, mas não é aceito socialmente”, defende Gorjão.

queer e lutar por essa diversidade.”

Dar visibilidade, para que um amor assim não permaneça escondido numa montanha, para que deixe de estar “tão longe”, como canta Carla Galvão, que entoa as baladas que intercalam as cenas (a música original de Dan Gillespie Sells foi adaptada e a direção musical ficou a cargo de Miguel Lucas Mendes). “Tão longe”, repete a atriz que também atua como cantora. E que, em uma única estrofe, resume a tristeza de toda essa realidade: “Na montanha, longe das coisas vulgares,/ Tão distantes, por rarefeitos ares,/ Dos velhos cães que insistem em ladrar/ Pela noite sombria, eles só querem amar.”


Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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