O horário de almoço se aproxima e, gradualmente, as mesas ao redor do que parece ser uma pequena mercearia étnica começam a ser ocupadas. É sempre assim no Mercado de Arroios, onde o Zaytouna se tornou o destino ideal para quem busca os sabores intensos da gastronomia do Médio Oriente.
Neste restaurante palestiniano, comer também é uma afirmação política. No Instagram do Zaytouna, as publicações que abordam várias causas contemporâneas – desde questões de gênero até o bloqueio a Cuba e, claro, a violenta intervenção israelita em Gaza – convivem com as imagens dos pratos servidos.
Os pratos do Zaytouna – cujo nome significa “azeitona” em português – contribuíram para que o restaurante entrasse na lista dos 101 Top Restaurantes de Lisboa, uma colaboração entre ImmigrantFoodies e a Mensagem de Lisboa.
Quando o Zaytouna iniciou suas atividades em 2016, apenas como um mercado de especiarias, o mundo, que sempre convive com guerras e conflitos, parecia um pouco menos agitado do que é hoje. Mas essa perspectiva, na verdade, é limitada pela visão ocidental.

Para o palestiniano Hindi Mesleh, as notícias frequentes sobre discriminação, perseguição e massacre sempre fizeram parte da vida cotidiana em Gaza, sua terra natal. Em 2013, a construção de um muro por Israel – o apartheid wall – tornou a vida praticamente insuportável, levando-o a sair para Bruxelas e, depois, em 2016, para Lisboa.
Graduado em produção de documentário pela Universidade Dar al-Kalima, em Ramallah, Hindi também registrou as nuances do aumento das tensões no seu projeto de conclusão de curso. Foram as últimas vezes que atuou como diretor. Como imigrante, adaptou-se à realidade em que diplomas estrangeiros têm pouco valor.
Em Bruxelas, trabalhou na manutenção de apartamentos, ironizando o significado de seu sobrenome: Mesleh. “Em árabe, Mesleh é algo como fixer em inglês”, explica. “Literalmente, meu nome significa o indiano que conserta as coisas”, brinca o palestiniano.
Já em Lisboa, Hindi trocou a manutenção pela gastronomia. Começou com a mercearia e, dois anos depois, expandiu o espaço para incluir mesas internas e uma esplanada, abrindo para o almoço e jantar, rapidamente tornando-se uma referência não apenas na gastronomia palestiniana, mas também na rica oferta do que é chamado de “comida árabe”.
Assim, o homem que conserta as coisas passou a consertar as refeições dos lisboetas que buscam saciar seu apetite.
Obra de arte servida à mesa, com preço em conta
À medida que o horário de almoço progride, o restaurante se enche com aromas de especiarias que emanam de entradas como pães árabes, hummus, tabbouleh e falafel, todos preparados em uma cozinha aberta, gerida por um chef dedicado, com um balcão separando o espaço da mercearia das mesas, fazendo com que o cheiro envolvente permeie a experiência dos clientes.
O dia a dia no Zaytouna é intenso. Junto ao chef, uma simpática funcionária compõe a equipe, que não para um minuto. A equipe enxuta não resulta em longas esperas; os pratos chegam rapidamente, ainda quentes, como o Makdous, um prato de beringela defumada, recheada com pimentões, nozes, tomate e molho tahini.
Esse prato é aquele que já se começa a apreciar visualmente. Grande parte do menu do Zaytouna parece ter sido “desenhada” à mão por um artista, e, em alguns casos, dá uma certa tristeza desfazer a obra de arte com o garfo. Um sentimento fútil, pois é impossível resistir.
A equipe enxuta provavelmente é um dos fatores que permitem um dos grandes attrativos do Zaytouna: os preços acessíveis. Apesar da sofisticação nos preparos e na apresentação, a sensação é de que a intenção é trazer a comida das ruas da Palestina para Lisboa, essa experiência de compartilhar um almoço em uma família palestiniana.
“As receitas são todas minhas. Sempre gostei muito de cozinhar, seja em família, mas também em experiências num restaurante que tive em Ramallah,” conta Hindi, falando em português fluente.
Hindi aprendeu português logo ao chegar, em um curso privado de três meses. “Tive que aprender rapidamente para começar a vender”, destaca o palestiniano. A loja ajudou bastante no aprendizado, assim como o apoio da namorada portuguesa.
Em bom português, Hindi ainda apresenta que a escolha do nome Zaytouna, que significa azeitona, é parte do perfil ativista do restaurante. “Na nossa cultura, a oliveira é um símbolo de resistência”, explica.
Essa resistência também se reflete na lista de bebidas, que inclui, ao lado da refrescante limonada de rosas, a Palestinian Coke, uma versão oriental do refrigerante ocidental, que faz parte da lista de boicote dos ativistas, mas não por ser fabricada nos EUA.
“E sim, por ser financiadora direta do exército de Israel”, enfatiza Hindi, posando para a foto da reportagem, usando uma camiseta estampada com a fruta símbolo da resistência em Gaza, a melancia, que, por ter as mesmas cores da bandeira palestiniana, tem funcionado como um “símbolo alternativo” em manifestações onde a original não é permitida.
A resistência como prato principal
A rotina também é exigente para Hindi, que trabalha uma média de 16 horas por dia, dividindo-se entre o Mercado de Arroios e Cascais, onde o Zaytouna abriu uma filial em 2020. Sem contar o trabalho adicional de fornecer produtos orientais – como a Palestinian Coke – a outros mercados e restaurantes em Lisboa.
Essa variável como fornecedor é crucial para manter os preços acessíveis no restaurante.

“Como temos os produtos praticamente a valor de custo, conseguimos manter o preço acessível, o que é importante para nossa filosofia de formar uma comunidade em torno do restaurante”, explica Hindi.
Essa “comunidade” encontrou um perfil mais conservador em Cascais, menos interessado nas questões globais. A soma desse fato com o estressante vai-e-vem no volante levou Hindi a considerar fechar a filial para reabrir a segunda unidade no bairro da Graça, onde reside, no Beato.
Essa medida seria uma tentativa de reduzir o intenso esforço diário e o cansaço acumulado, que só é ofuscado pelo sorriso amigável que está sempre presente no rosto do palestiniano, que, além da rotina no restaurante, certamente teria motivos de sobra para estar exausto, especialmente pela família que permaneceu na Palestina.
O anunciado cessar-fogo no Oriente Médio é sempre bem-vindo, mas a experiência mostra que a paz é efêmera. “Gostaria de acreditar que a matança acabou, mas na verdade sinto que isso nunca vai parar”, reflete.
A última visita de Hindi à família na Palestina foi em 2023. “Pela primeira vez, tive medo de ir”, confessa o palestiniano, que encontra nos raios de sol de Lisboa um alívio para suas angústias. “O clima foi um fator importante na minha decisão de deixar Bruxelas. Estava alergico ao frio e ao céu cinza”, conta.
Isso pesou na sua escolha por Lisboa. “Estava em dúvida entre a Espanha e Portugal, mas disseram que aqui seria mais fácil conseguir a documentação”, explica o palestiniano, que desde 2022 aguarda a chegada da nacionalidade portuguesa. “Parecia que seria fácil, mas não foi”, resume Hindi, sem esconder a decepção.
Uma tristeza que logo cede espaço ao sorriso do proprietário do restaurante cujo nome é inspirado na oliveira, o mesmo que é um símbolo de resistência para os palestinianos.









