A jovem atriz Mariana Cardoso, protagonista deste drama intimista, ao lado de Miguel Borges e Miguel Nunes, interpreta uma rapariga que dedica todo o seu tempo livre aos treinos de futebol com o pai. A rotina de ambos é abalada pelo regresso inesperado do irmão mais velho, que partiu há anos após um incêndio trágico que lhes tirou a mãe. A história é ambientada numa aldeia remota de Portugal, revelando a realidade de um país que parece esquecido.
Fui educado por mulheres e, quando comecei a crescer, fui percebendo qual era a minha posição enquanto homem na sociedade, o que isso representava. Fui aprofundando essa questão em diferentes momentos da vida, acima de tudo tive necessidade de explorar a sensibilidade, a energia de amor que identificava na minha mãe e nas minhas avós. Porque, independentemente daquilo que fizesse, ou de como era, elas amavam-me. Portanto, sem dúvida, que a minha mãe e tudo o que aprendi com ela e com as minhas avós foram a grande fonte de inspiração para conseguir construir esta história, sobretudo a história da protagonista, a Maria Vitória.
Cada um de nós, em algum momento da vida, tem de escolher entre seguir aquilo em que acredita, que a sua intuição diz que deve seguir, ou continuar um caminho que vai sendo imposto. No filme, quis falar sobre o poder de escolher o teu próprio caminho. Independentemente do amor que sentes pelas pessoas que estão à tua volta, não tens de estar de acordo com elas sobre o que queres fazer com a tua vida. Mesmo que isso, de alguma forma, possa magoar os que te são mais próximos. Para mim, este assunto tocou-me bastante como adolescente e até enquanto adulto, a importância de ter a minha voz como artista. Portanto, senti-me à vontade para falar sobre isso. Porque é preciso termos a coragem de assumir a nossa própria voz, de dizermos aquilo que pensamos, mesmo que isso vá contra a opinião das outras pessoas. E, ainda assim, aceitares-te e seres aceite. Era um tema que queria tocar e que para mim é muito inspirador. E não tem só, objetivamente, a ver com a adolescência, mas sim com o facto de, em algum momento, decidirmos que temos voz.
Havia uma questão conceitual, que era a região em si, onde, ao longo dos anos, observei lutos coletivos por causa dos incêndios. Depois, do prisma pessoal, a minha mãe faleceu em 2018 e, obviamente, eu estava a navegar essas águas, do que é fazer o luto, do medo de esquecer de alguma forma a imagem da minha mãe, mesmo depois de ter vivido muitos anos com ela. Tentei encontrar uma forma de partilhar aquilo que tinha dentro de mim enquanto autor. Avaliar o que é o luto, que nos deita abaixo, mas também nos fortalece. Costuma dizer-se que quando alguém morre há uma estrelinha que fica no céu. Penso que há um exército da paz lá em cima que está contigo e que te vai ajudar a caminhar e dar força. É uma energia que te faz ser mais forte.

Sim, todos temos família e nenhuma família é perfeita. Queria falar sobre isso, porque acho que ao longo da vida temos de aprender a amar aqueles que estão à nossa volta, aqueles que são os nossos familiares. Voltamos à questão de há pouco, nem sempre concordamos com eles, mas temos de ganhar a nossa própria voz, de nos conseguirmos impor. A família é um tema que toca a todos, seja pela presença, seja pela ausência. Somos educados pela presença e pela ausência, dos nossos pais, dos irmãos… temos de lidar com essa energia. Queria muito falar sobre isto, não espelhando objetivamente a minha família, mas todas as famílias que conheci ao longo da vida.
Ao longo dos anos, os filmes que fui fazendo e que acho que de alguma forma me facilitaram a vida, por um lado, foram sempre filmes sobre realidades fora de Portugal. Isso fez com que não tivesse de lidar com as coisas que sinto quando observo o meu país. Este filme também começa com essa busca de tentar encontrar uma história que me levasse para dentro de Portugal. Não é uma história sobre um lugar isolado, mas sim, sobre Portugal. Centralizamo-nos nos grandes centros urbanos e esquecemos que tudo o resto, que não é o resto, que é muito maior do que os centros urbanos, é Portugal. Queria muito mostrar um pouco desse país, dentro daquilo que o filme possibilitava. É revoltante perceber como Portugal vive a privilegiar os centros urbanos, esquecendo todo um país que existe para além disso.

Há cerca de três anos, quando estava ainda a escrever o guião, quis conhecer quem eram as atrizes que potencialmente poderiam encaixar nesta personagem. Na altura foi um trabalho feito com a Patrícia Vasconcelos e foi aí que conheci a Mariana. Senti sempre que a Mariana tinha algo escondido, o que para mim era muito interessante. O que estava lá dentro era muito mais do que aquilo que a câmara estava a captar, portanto percebia o potencial, percebia a capacidade de crescimento e de progressão que ela poderia ter. Antes de começarmos a filmar falei com ela e disse-lhe: “vou dar tudo por ti porque quero que sejas a melhor atriz do mundo no sentido de conseguires cumprir com este filme, só quero que te entregues em igual dose”. Nesse encontro também levei a câmera fotográfica e tirei-lhe duas ou três fotos. Vi uma das fotos e percebi que não havia dúvidas. A Mariana transmite sensibilidade, um lado feminino e ao mesmo tempo uma força de guerreira, o que era muito importante para esta personagem.
Com o Miguel Nunes, fui eu que fiz o casting. Queria testar como é que as pessoas reagiam estando na pele da personagem. Inicialmente não trabalho com texto, trabalho os personagens e só depois começo a trabalhar com texto. Portanto, fizemos um exercício de improvisação e foi muito interessante a forma como o Miguel Nunes me foi dando camadas de sentido de humor, de respostas que não eram óbvias, demonstrando uma alta inteligência enquanto ator. Em relação ao Miguel Borges, era a única pessoa que objetivamente encaixava para ser o pai. O Miguel é realmente um dos maiores génios que temos em Portugal, para além de ser um ser humano com uma generosidade infindável.
A produção foi só uma questão de necessidade. Era para mim relevante, de alguma forma, criar filmes em Portugal e em sistemas de coprodução. A produção permitiu-me ter experiências que me enriqueceram e possibilitou ajudar outras pessoas a concretizar os seus sonhos. Sempre quis ser realizador, acho que isso para mim é muito claro e objetivo. Venho de um background ligado ao trabalho de ator e de treino de atores. Depois dediquei-me à realização. É o que me imagino a fazer para sempre. Tenho vários projetos em mão: a adaptação de As Mulheres do Meu Pai, do José Eduardo Agualusa, que está finalizada, e, em andamento, Jesusalém, a partir de Mia Couto.









