António Botto
Caderno Proibido
“Decretos e leis, preconceitos e doutrinas, / Inventados pelo abuso de uma sociedade de zero, / São gravatas ou coleiras / Que eu não compro e nem quero.” Depois de ser despedido da função pública e ostracizado pela maioria do meio literário português, António Botto, homossexual assumido, emigrou para o Brasil em 1947, fugindo do conservadorismo moralista do Estado Novo. Profissionalmente, sua estadia no Brasil foi um fracasso, levando-o a uma vida de miséria, sobrevivendo apenas graças ao apoio de alguns amigos. Literariamente, além de colaborações esporádicas em jornais, escreveu Caderno Proibido, uma coletânea de textos homoeróticos. Segundo Victor Correia, que organizou e prefaciou a presente edição, “ao contrário das sutilezas e de uma certa leveza que aparecem, por exemplo, no seu livro Canções”, estes textos são escritos “sem subterfúgios; o homoerotismo é mais explícito. Alguns poemas podem até ser considerados pornográficos ou obscenos.” Apesar de serem inéditos até hoje e “menos trabalhados e mais espontâneos do que os poemas publicados durante sua vida, refletindo uma escrita mais imediata e confessional”, esses textos mantêm sua relevância literária e confirmam Botto como uma das vozes mais singulares da poesia portuguesa do século XX. LAE Guerra e Paz

Colette
Gigi e Outras Novelas
As personagens femininas de Sidonie Gabrielle Colette (1873-1954), que pertencem às margens da sociedade (seres marginalizados, lésbicas ou andrógenos inadaptados, privados do conforto da vida burguesa), anseiam por amor, frequentemente frustrado. Defensora da liberdade sexual (como dançarina de music-hall, Colette causou escândalo ao desnudar os seios), suas novelas retratam a maneira como as mulheres eram educadas para se comportarem como objetos em um mundo dominado por homens. Gigi é um dos melhores exemplos: narra a vida de uma jovem de 15 anos que é preparada pelas mulheres da família para se tornar uma cortesã. A obra inspirou o magnifico filme musical homônimo de Vincente Minnelli, protagonizado por Leslie Caron, que ganhou 9 Oscars. Curiosamente, o personagem mais popular do filme, Honoré Lachaille, “velho libertino”, narrador e comentador da vida parisiense da Belle Époque, interpretado pelo lendário Maurice Chevalier, não tem origem na novela; foi criado inteiramente pelo roteirista, o famoso letrista Alan Jay Lerner. Nas duas outras novelas desta coletânea, Colette narra, de maneira especialmente perspicaz, a experiência de um menino de dez anos imobilizado pela paralisia infantil e a origem de uma tentativa de suicídio. A tradução é de José Saramago. LAE Porto Editora

Albert Cossery
A Violência e o Escárnio
“A polícia perseguia a preguiça e a indolência, considerando-as crimes contra a nação. Uma civilização inteira e um modo de vida fácil e brando tendiam assim a desaparecer.” Albert Cossery (1913-2008), escritor egípcio de língua francesa e amigo de Albert Camus, Lawrence Durrell e Henry Miller, publicou somente oito títulos. Defensor da indolência, sempre procurou não ultrapassar suas médias: uma linha por semana, um livro a cada oito anos. Cultor do desapego, rejeitou os valores do consumismo e da ambição desenfreada, expressando um genuíno desprezo pelas instituições estatais e seus líderes. A Violência e o Escárnio narra a história de Karim, um jovem ex-revolucionário que se dá conta de que o governo é “motivo de escárnio” e que, apesar de sua inteligência, o tem levado “a sério”. Ele se junta a um pequeno grupo que busca uma nova forma de combate político, contrapondo humor ao exercício despótico do poder. À violência respondem com escárnio: “A um tirano morto prefiro um tirano ridicularizado. É um prazer mais durável.” Obra profundamente atípica, que transita entre a farsa e o conto filosófico, mantém intacto seu poder subversivo, pois a realidade que descreve pouco mudou; sociedades materialistas criam cada vez menos homens livres, a violência continua a sobrepor-se ao humor e os detentores do poder garantem sua quota involuntária de grotesco. LAE Antígona

Jonathan Morris
Café – Uma História Global
Nenhum alimento está tão enraizado no gosto dos portugueses quanto o café: a “bica” no Sul e em Lisboa, o “cimbalino” no Norte, especialmente no Porto. O inevitável “cafezinho”, mais do que um alimento, configura um verdadeiro ritual, um hábito social que estimula a convivência, a partilha de momentos e o fortalecimento de laços. O café, além disso, é uma bebida global que viajou das “florestas da Etiópia às fincas da América Latina, dos cafés do Império Otomano aos cafés da ‘terceira vaga’, da cafeteira à máquina de cápsulas.” Neste que é a primeira história global do café escrita por um historiador profissional, o professor e pesquisador da Universidade de Hertfordshire, Jonathan Morris, explica como o mundo adquiriu o gosto por esta bebida e por que seu sabor varia tanto de região para região. Ele identifica regiões e métodos de cultivo, seu processamento, comercialização e transporte, além de estudar as empresas por trás do café e examinar a geopolítica que liga produtores a consumidores. Este livro, repleto de receitas, histórias e curiosidades, esclarece as razões que contribuíram para tornar o modesto grão de café um elemento essencial da vida moderna. Para ler acompanhado de uma fumegante e perfumada chávena de café. LAE Bookbuilders

Julian Barnes
Partida
A partida retratada neste livro indica o caminho que se dirige ao fim da vida. Julian Barnes escolhe despedir-se dos seus leitores em vida, com uma obra que busca reconciliar-nos com a experiência universal (de viver) composta por amor, desamor, saúde, doença, acontecimentos bons e ruins que não seguem necessariamente uma lógica de merecimento. Como qualquer escritor que valoriza o que existe de mais precioso na sua arte, inclusive mais do que estilo, Barnes inicia o discurso sobre a memória e a capacidade notável dos que têm acesso a ela de maneira automática involuntária (inspirado pelo exemplo da “madeleine” de Proust). Abordando substancialmente sua história recente e a convivência com uma doença oncológica tratável, Julian Barnes também recorda a história de um casal que se reuniu duas vezes com 40 anos de diferença, sempre com o mesmo desfecho fracassado. “Ela quis dizer que eu era um apostador em relação à vida dos outros. Mas, no fundo, não é isso que todos os romancistas fazem? Ao menos é assim em seus livros.” As derrotas nunca são verdadeiras derrotas quando são escritas. Em um dos tabuleiros, Julian Barnes sempre saiu vitorioso. RG Quetzal
David Greig
O Piloto Americano
Um avião militar americano cai em um vale rural de um país em guerra. Um agricultor local encontra o piloto ferido e, embora relutante, acolhe-o em um abrigo para gado. Sem saber como agir, pede ajuda a um negociante que exige que qualquer decisão sobre o forasteiro passe pelo conselho da região, chefiado por um militar conhecido como “o Capitão”. Enquanto Sara e Eva, mulher e filha do agricultor, tentam cuidar do ferido – a jovem alimenta a ilusão do “sonho americano” –, os homens veem o piloto como a personificação do inimigo. Com a chegada do Capitão, acompanhado por um tradutor que tem muitas contas a ajustar com o passado, a situação do piloto, já crítica, se complica ainda mais. Escrito pelo dramaturgo escocês David Greig após a segunda invasão do Iraque pelos Estados Unidos, O Piloto Americano é, nas palavras do encenador António Simão, que a levou recentemente ao palco do Teatro Variedades, “uma parábola irônica” sobre a percepção que o resto do mundo tem da superpotência global, oscillando entre o mais extremo ódio e o mais pueril fascínio. FB Livrinhos de Teatro – Artistas Unidos/SNOB

Antologia de contos humorísticos e satíricos russos
Esta antologia reúne 50 textos humorísticos e satíricos, de 11 autores de diferentes gerações, muitos deles inéditos e desconhecidos do público português. Apesar da diversidade de gêneros e estilos, os textos compartilham um “profundo interesse pela humanidade, atenção especial às sutilezas da vida cotidiana, às estruturas sociais e à linguagem como meio de pensamento e de argumentação”. Escritos entre 1859 e 1946 e organizados cronologicamente do autor mais recente ao mais antigo, os contos ainda mantêm sua pertinência, especialmente aqueles que abordam questões como emigração, desinformação ou habitação, como por exemplo A crise, escrito em 1925 por Mikhail Zoshchenko, onde se lê: “Daqui a 20 anos ou, se calhar, até menos, cada cidadão terá um quarto só para si! E se a população não aumentar por aí além e, por exemplo, permitirem a todos fazer abortos – terá dois quartos. Ou mesmo três por cada nariz. Com banheira.” Ou ainda, sobre as hierarquias sociais, como O proletário de sangue puro, escrito pela dupla Ilia Ilf e Evgueni Petrov em 1929; e O homem da alta sociedade, ou guia para o conhecimento das regras da Alta-roda, compilado por D.I. Sokolóv, São Petersburgo, 1847, escrito por Iván Goncharov em 1859. Retratos da Rússia na segunda metade do século XIX e da União Soviética na primeira metade do século XX, os textos selecionados pretendem “esclarecer todas as nuances que pairam por trás da cortina”. SS Tinta-da-China
Michel Pastoureau
Rosa
Michel Pastoureau defende que a cor não é simplesmente um fenômeno natural, mas uma construção cultural complexa, um fato social: “é a sociedade que ‘faz’ a cor, que lhe dá sua definição e seu sentido, que constrói seus códigos e valores, que organiza suas práticas e determina suas implicações.” Este é um livro de história, o sétimo e último de uma série dedicada a estudar as cores nas sociedades européias, do paleolítico até os dias atuais, sob todos os aspectos, do léxico aos símbolos, passando pela vida cotidiana, práticas sociais, conhecimentos científicos, aplicações técnicas, moral religiosa e criações artísticas. O autor começa questionando se o rosa deve ser considerado uma cor em pleno direito. Ele está ausente de todas as listas de cores legadas pela Antiguidade e Idade Média, sendo integrado ao grupo das cores “mistas” somente no século XVII. Se, para a ciência, o rosa não é uma cor, na cultura material, nos hábitos de vestir e nos códigos sociais que o acompanham, ele é inquestionavelmente considerado uma cor, autônoma e significativa. Com conotações variando de positivas (“ver a vida cor-de-rosa”) a negativas (“literatura cor-de-rosa”), acabou por adquirir uma forte conotação de gênero, tornando difícil imaginá-lo com outro significado. LAE Orfeu Negro











