Ana Sofia Varela

Ana Sofia Varela


O teu primeiro contacto com o fado deu-se muito cedo. Sempre gostei de cantar um bocadinho de tudo. Comecei com as modas alentejanas, que foi a minha grande influência inicial por causa da minha avó, que cantava modas. Depois comecei a cantar José Cid, Rui Veloso… Um dia, aos dez anos, ouvi cantar fado na televisão e perguntei ao meu pai o que era. Ele falou-me da Amália Rodrigues. A partir daí, comecei a ouvir fado constantemente. Entretanto, o meu irmão começou a trabalhar na Rádio Serpa e trouxe-me discos de vários fadistas: Maria Teresa de Noronha, Fernanda Maria, Teresa Tarouca, Lucília do Carmo, etc. Tudo o que havia na rádio, ele trazia para casa e eu ouvia e aprendia. A minha família ouvia-me cantar, achava graça, e eu dizia que queria ser artista…

Comecei por cantar numa casa de fados que já não existe, o Clube Amália, em Cascais. Um pouco antes dessa fase, ia e vinha aos fins de semana para o Clube de Fado, através da mão do Carlos Zel, que é o meu padrinho de fado e que me apresentou ao Mário Pacheco [guitarrista]. Por sua vez, o Mário Pacheco convidou-me para estar no elenco da casa de fados dele. Foi nessa altura que resolvi vir definitivamente para Lisboa e viver do fado. O palco é onde sinto mais adrenalina, adoro-o. Na casa de fados, posso fazer experiências e, se correr mal, não é tão grave. O palco cria aquela tensão onde tudo tem de ser muito certinho. As duas experiências são diferentes e têm a sua magia.

Sinto-me mais madura em termos de interpretação. Em termos vocais, sinto que a minha voz amadureceu, está mais cheia. Às vezes tenho saudades da Ana Sofia menina, daquilo que fazia e da facilidade com que fazia, porque o aparelho vocal era um pouco mais fresco. Há certas capacidades físicas que se têm quando somos novos que depois deixamos de ter com o passar dos anos. Mas, claro, ganham-se outras coisas, como uma capacidade interpretativa ou a profundidade naquilo que se canta.

Tive a sorte do Vasco Graça Moura me conhecer. Fui das primeiras fadistas a cantar Graça Moura, que é algo que me honra. Conheci-o muito bem, graças ao disco do António Chainho em que participei, que se chamava A Guitarra e Outras Mulheres, no qual me inspirei para o meu disco que saiu agora. Conheci-o em Barcelona, numa das apresentações do disco onde fui com o António Chainho. Foi muito bonito… ele veio ao meu encontro e disse-me que gostaria muito que cantasse um poema dele.

“Tenho pena de ter tido longos períodos de paragem entre discos, porque ao longo destes anos tive muitas ideias que não concretizei”

Para o fado, principalmente para os fados tradicionais, nem sempre é fácil conseguir encontrar um poema que caiba em determinada melodia, com quadras, sextilhas, quintilhas… tudo a ter de encaixar na perfeição. Nesse aspecto, acho que os poemas antigos vestiam melhor as músicas.

É tudo bem-vindo. Tenho pena de ter tido longos períodos de paragem entre discos porque, ao longo destes anos, tive muitas ideias que não concretizei, mas que ainda espero fazê-lo. Fiz, sim, espetáculos, por exemplo, de fado e flamenco. Aliás, eu comecei em 1998 num espetáculo de fado e flamenco – De Sol a Lua – Flamenco & Fado – ao lado do Camané, com uma companhia de dança de Madrid. O evento estava inserido nos espetáculos da Expo’98 e foi aí que tudo começou. Também cheguei a fazer, em 2017, no Castelo de São Jorge, um espetáculo de fado e flamenco, onde me atrevi a cantar algumas canções de flamenco…

Recentemente, lancei o meu terceiro disco, A mulher e outras guitarras. Este disco é um manifesto sobre o papel da mulher no fado e na música portuguesa? A ideia foi inspirada pela minha participação no disco de António Chainho, A guitarra e outras mulheres, que foi o trabalho que me levou a um público mais vasto. Há muitos anos que tinha a ideia de fazer um disco com vários guitarristas convidados. Para mim, a guitarra é um instrumento que varia de instrumentista para instrumentista, cada um tem a sua personalidade, a sua alma, a sua entrega, e isso influencia a forma de cantar. Neste disco, isso aconteceu porque está lá o cunho pessoal de cada um, resultando num disco equilibrado que me deixa muito feliz.

São as pessoas que me têm acompanhado. Conheço-os a todos, já me acompanharam em variadíssimas situações. E mais convidaria, se tivesse espaço para isso. Se fosse convidar todos aqueles que eu queria, teria de fazer vários discos. Tenho muita pena que muitos com quem tive a sorte de trabalhar já não estejam presentes, como o Fontes Rocha, Carlos Gonçalves, José Luís Nobre Costa…

Vou ter em palco alguns dos músicos que estão no disco, mas não todos. Irei cantar os temas desse trabalho e haverá algumas surpresas… Vou ter comigo o Camané, o Pedro de Castro, o Pedro Jóia, o José Manuel Neto e a minha filha, que também já canta. Vou também cantar temas mais antigos que fazem parte da minha história.

Aconselho-a a ouvir muito fado, a escutar os mais velhos humildemente – porque têm sempre coisas importantes para ensinar – e, acima de tudo, a seguir os seus sonhos, a não desistir nunca.

Agora vou viver este disco com calma e depois o futuro logo se verá, até porque ideias não me faltam.

Nuno Martins Craveiro, jornalista de 42 anos, é o responsável pela estratégia e coordenação de conteúdos da axLisboa.pt. Com uma visão abrangente e rigorosa, supervisiona as diversas áreas editoriais do site, que abrangem desde a atualidade local e nacional até à economia, desporto e ciência.

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