Em um livro recém-lançado intitulado Lisboa Fadista, o autor Sérgio Luís de Carvalho realiza a notável tarefa de narrar a história da capital ao longo dos últimos cem anos através de uma seleção de fados. O aspecto extraordinário é que todos esses fados são variações do famoso A Casa da Mariquinhas, interpretado por Alfredo Marceneiro no início da década de 1960, mas a letra é de Silva Tavares, provavelmente escrita em 1913.
Nesse local mítico, do qual Marceneiro fez uma miniatura – uma casa de tolerância em um tempo em que a prostituição era ainda aceitável – existem diversos elementos que aparecem de forma intercalada nas versões subsequentes (a guitarra, as rendas, as cortinas de chita, as colchas, a ginginha…), sendo as tabuinhas que cobrem as janelas o detalhe mais emblemático, permitindo que a vizinhança não presencie o que se passa dentro.
Com a proibição dos prostíbulos nos anos 1940, surgiu então, sob a letra de Linhares Barbosa e novamente interpretado por Marceneiro, O Leilão da Casa da Mariquinhas, que narra como as vizinhas, cansadas da situação, organizaram um abaixo-assinado e finalmente se livraram da Mariquinhas (e de suas colegas), cujo paradeiro agora se desconhece. O conteúdo da casa foi leiloado, incluindo as tabuinhas e a guitarra, vendidas a preços irrisórios.
Essa mesma dupla de artistas compôs em seguida Depois do Leilão, uma terceira versão que retrata a casa, agora abandonada e em ruínas, sendo reestruturada de forma questionável (até as vizinhas revelam sentir saudade das tabuinhas) e transformada em uma casa de penhores, com porteiro e um Cadillac na porta. Não há sinais da Mariquinhas, que também não figura na versão de 1968, escrita por Alberto Janes, a qual Amália Rodrigues interpreta e que é a mais conhecida entre todas: Vou Dar de Beber à Dor. Neste fado, recordam-se os bons tempos da casa, evidenciando que a usura substituiu o amor.
A Mariquinhas poderia ter caído no esquecimento, mas ressurge de forma inesperada no fado Já Sabem da Mariquinhas, com letra de Carlos Conde, novamente cantado por Marceneiro, em que se revela que Mariquinhas esteve presa por ter se envolvido em problemas, mas seus amigos se reúnem para lhe fazer uma festa de homenagem e emprestar o dinheiro necessário para recuperar suas coisas.
Enquanto isso, a grande Hermínia Silva – fazendo uma clara alusão ao fado que Janes compôs para Amália e à mesma melodia – canta, já na Primavera do marcelismo, Vou Dar de Beber à Alegria, escrito por Eduardo Damas, com diálogos cômicos entre as estrofes. Ela conta que Mariquinhas (agora pesando 100 kg) expulsou o homem dos penhores e retornou a dar à casa seu aspecto original, cujas janelas estão novamente “catitinhas”, pois trocaram os feios caixilhos de metal por velhas tabuinhas.
Entretanto, apesar de a casa reabrir, Lisboa nunca mais foi a mesma; a prostituição é agora ilegal e as freguesias de Lisboa perderam população, enquanto os subúrbios crescem rapidamente. Haverá ainda lugar para essa casa de encontros? Parece que não. Com a desilusão, a Mariquinhas sucumbe, em um fado intitulado Já Morreu a Mariquinhas, escrito por Lopes Victor e interpretado por Alcindo de Carvalho, que descreve o funeral, ao qual comparece gente de todos os lugares, mencionando que o caixão foi feito completamente com as célebres tabuinhas. O mesmo letrista escreve para Marceneiro a oitava versão do fado, O Testamento da Mariquinhas, no qual a protagonista deixa a guitarra a Deus e “à moirama as tabuinhas”.
O luto persiste por anos; mas já no século XXI, a dupla Capicua-Gisela João ressuscita a nossa Mariquinhas em dois fados. No primeiro – A Casa da Mariquinhas, a Nova, de 2015 – o edifício aparece degradado e esquecido, acusando o poder político de negligenciar o patrimônio público, e a juventude já nem sequer tem ideia de quem um dia ali habitou. No segundo – O Hostel da Mariquinhas, de 2023 –, com a febre do turismo, a casa se transforma em alojamento local, enquanto os pobres portugueses são expulsos do bairro por não conseguirem arcar com os altos aluguéis exigidos pelos proprietários. É melhor que Mariquinhas não esteja mais aqui para presenciar tamanha mudança…
De bordel a hostel, a Casa da Mariquinhas gerou uma dezena de composições, que também narram a história de mais de um século da nossa Lisboa fadista.









