Localizado em um dos bairros mais fotografados da cidade, o Museu de Arte Contemporânea e Centro de Arquitetura do Centro Cultural de Belém (MAC/CCB) não é um museu voltado apenas para turistas. Enquanto explora as tendências mais vanguardistas da arte contemporânea, o espaço se propõe a ser acessível a todos os públicos, promovendo inclusão ao invés de adotar um caráter elitista que muitos associam a tais instituições.
Nuria Enguita, que assumiu a direção artística do MAC/CCB há pouco mais de um ano vinda do renomado Institut Valencià d’Art Modern (IVAM), acredita que a programação da temporada 2025/2026 exemplifica bem a atenção do museu para com a sociedade, especialmente em relação à cidade de Lisboa.
Ela destaca a exposição “Avenida 211”, já inaugurada, que captura um momento crucial da arte portuguesa nos anos 1990, quando um coletivo de artistas ocupou um espaço desativado na Avenida da Liberdade.
Recentemente, foi aberta uma nova exposição dedicada ao artista brasileiro Roberto Burle Marx (1909-1994), destacando seus projetos paisagísticos. Segundo Nuria, ele é uma referência importante para o desenvolvimento urbano no Brasil, trazendo à tona questões sobre o direito à cidade, a sociabilidade nos espaços públicos e a preservação ambiental.
Uma disciplina para entender o mundo
A diretora artística defende que os museus devem ter uma função pedagógica no atual momento histórico, promovendo reflexões sobre as contradições sociais:
“Os limites cronológicos e conceituais de uma coleção impõem alguns parâmetros, mas a arte contemporânea permite trabalharmos de inúmeras maneiras. Nesse aspecto, a coleção Berardo é incrível.”
Para Nuria, “os museus ocidentais, no século XXI, têm a responsabilidade de expandir seu campo de atuação para incluir questões pós-coloniais, feminismo e diversas classes sociais”. Ela vê a arte como uma ferramenta crucial para entender o mundo, muito além de um mero passatempo.
A localização do CCB, numa praça que ainda recorda o Império e que é marcada pela Exposição do Mundo Português de 1940, representa um desafio adicional:
“As questões coloniais e pós-coloniais ainda não estão completamente resolvidas na sociedade portuguesa, e considero que este museu pode catalisar reflexões sobre esses temas fraturantes.”
Nuria chegou a Lisboa em maio de 2024, logo após a transição do antigo Museu Berardo para o Museu de Arte Contemporânea e Centro de Arquitetura. Desde então, tem se dedicado a estabilizar métodos de trabalho e fortalecer vínculos com outros departamentos do CCB. Ela observa um aumento considerável no número de visitantes, tanto locais quanto estrangeiros, e acredita que isso é um indicador positivo de que o trabalho está dando frutos.
Além disso, a diretora valoriza a reaproximação da comunidade artística e acadêmica com o museu, que tinha diminuído nos últimos anos do Museu Berardo. Para solidificar esses laços, Nuria busca desenvolver projetos multidisciplinares, envolvendo música, dança e artes performativas.
O MAC conta com uma coleção própria, a Coleção Berardo, e complementa sua programação com empréstimos de instituições nacionais e internacionais. Contudo, Nuria já expressou seu desejo de realizar aquisições próprias, algo que ela acredita que em breve se tornará realidade.
Educação pela arte
Em uma instituição do tipo, o trabalho nunca está completo. Não se trata apenas de vender tickets e abrir as portas; é essencial promover acessibilidade, sinalização e visitas guiadas em várias línguas.
O serviço educativo, liderado por Cristina Gameiro, que faz parte do museu desde sua primeira inauguração, é uma área em que o trabalho é constantemente renovado. Cristina, coautora de uma coleção voltada para a divulgação da História da Arte para jovens, explica sobre os projetos em desenvolvimento, que incluem uma programação anual para escolas e universidades, com atividades adaptadas às exposições em exibição.
A oferta para escolas é gratuita e é acompanhada por visitas guiadas feitas por técnicos de serviço pedagógico. Cristina observa que é estimulante perceber os efeitos dessas atividades no comportamento das crianças em relação à arte.
Um mini-curso de História da Arte Contemporânea, que se estende por quatro anos, destinado a alunos do 1º ciclo, destaca-se entre as atividades oferecidas.
“Os relatórios dos professores nos mostram que os alunos que participaram desse curso têm um desempenho diferente em relação aos demais. Os pais comentam frequentemente que os filhos acabam ensinando coisas, como sobre surrealismo ou arte pop.”
Além disso, o museu também realiza atividades lúdicas para famílias aos fins de semana, com uma sala equipada com jogos de diferentes tipos, sempre relacionados às coleções em exibição. Essas atividades são tão populares que as festas de aniversário organizadas no local precisam ser agendadas com antecedência.
Infelizmente, ainda não conquistamos totalmente o público universitário, incluindo os estudantes de Artes. Contudo, estamos desenvolvendo colaborações com instituições, como a Universidade Lusófona e a Faculdade de Motricidade Humana, mas ainda temos mais professores do que alunos.”
O MAC também se integra a uma rede de museus voltados para a inclusão de pessoas com demência, oferecendo programas em colaboração com a Associação Alzheimer Portugal. Esse trabalho, que exige grande sensibilidade, ocorre em sessões seguidas, onde os participantes são convidados a expressar-se de maneiras inesperadas em resposta às obras vistas no museu.
“A arte pop, por exemplo, muitas vezes evoca memórias pessoais. Já realizamos atividades que incluem pintura com esfregonas e um participante que cantou fado. O objetivo é que a arte seja um espaço de liberdade, onde não há dogmas ou medo de ‘não ter talento’, e que possibilite conversas e trocas de experiências.”
Cristina recorda com carinho momentos especiais, como a reaproximação entre uma mãe e um filho que pintaram juntos. Colaborações com artistas sensíveis ao tema, como o coreógrafo João Fiadeiro, têm sido realizadas no âmbito de técnicas voltadas para esse público, com suporte de instituições como a Cruz Vermelha.
O trabalho social de inclusão do MAC se estende ainda a projetos voltados para alunos da Casa Pia de Lisboa e para a comunidade do Bangladesh na Rua do Benformoso, com o apoio da Fundação Aga Khan. Entretanto, Cristina enfatiza que este é um trabalho em contínua evolução.
Novos públicos e projetos estão sempre surgindo. Assim como a arte, sempre há novas camadas a descobrir e curiosidades a despertar.









