Não estamos a estragar a surpresa ao contarmos a história de Filodemo. Logo nos primeiros momentos do espetáculo, após um preâmbulo do encenador Pedro Penim – o único verbo que aqui se escuta não é de Camões –, Vítor Silva Costa, o ator que interpreta o trovador que dá nome à peça, apresenta com clareza o enredo deste auto, conforme orienta Camões na página inicial desta sua rara incursão no teatro.
O auto de Filodemo narra que um fidalgo português, durante uma viagem por reinos da Dinamarca, se apaixona pela filha de um rei e a engravida. O casal é forçado a partir para o sul, mas o barco em que viajam naufraga em uma grande tempestade, sobrevivendo apenas a princesa. Em algum lugar da costa da Espanha, ela dá à luz a dois gêmeos, Filodemo e Florimena, morrendo logo após o parto.
Resgatados e cuidados por um pastor castelhano com habilidades de adivinhação, os irmãos são separados, e Filodemo vai para a cidade, onde serve como músico para seu tio, Dom Lusidardo. Ignorando a relação de parentesco com seu senhor, Filodemo se enamora da donzela da casa, Dionisa, que também lhe corresponde.
Enquanto isso, o destino leva o filho de Dom Lusidardo, o impulsivo Venadoro, a cruzar-se com Florimena, sua prima. Apaixonado, Venadoro fará de tudo para conquistar o coração da jovem pastora, acabando por ter sucesso, encerrando assim este romance entre primos.
Antecipar a narrativa antes de seu início aguça o interesse por esta comédia cheia de enganos e revelações inesperadas. Penim descreve a introdução de Camões como “um mecanismo bastante bizarro, mas particularmente interessante.” É, de fato, um valioso recurso para o espectador se situar em relação a “uma peça absolutamente quinhentista” onde, citando Luís Miguel Cintra (que encenou este texto em 2004), “nada (…) remete para o nosso tempo. As mulheres já não se enfadam a bordar. Os rapazes já não vão à caça para preservar a castidade. As pastoras já não vão descalças à fonte (…).”
Embora estejamos preparados para a trama, pode parecer surpreendente para quem acompanha o trabalho artístico de Penim ouvir os atores pronunciarem as palavras exatamente como Camões escreveu. “Estou a navegar em águas desconhecidas”, salienta o atual diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, reconhecendo que há “muita pouca intervenção sobre o texto.” E acrescenta: “Considero que é uma das coisas mais arriscadas que fiz e vejo-o como um projeto altamente experimental, embora o gesto possa parecer mais conservador ou até mais tradicional.”
Diferente de seu método habitual de escrever, encenar e criar papéis personalizados para seus atores, em Filodemo, Penim desafia diversos artistas com quem trabalha frequentemente a interpretar personagens de uma peça que, acredita-se, foi apresentada pela primeira vez em 1555. Para o encenador, o grande desafio é “descobrir como estes corpos contemporâneos, muitos deles não normativos, habitam essas personagens.”
Pedro Penim acredita que “o teatro é uma arte da presentificação, do momento, do aqui e do agora.” Contudo, nesta exploração do texto de Camões, o encenador assume que, independentemente de manter sua marca autoral, “o que se pretende é convidar o público a viajar para outro universo, para outra forma de falar, sentir e expressar”, distante do cotidiano de scroll e swipe nas redes sociais. Como menciona no preâmbulo do espetáculo, em Filodemo há “personagens que dão ghost ou que estão delulu”, e não mistérios contidos em “arquivos com 3,5 milhões de páginas de crimes contra a humanidade.” São apenas nobres, criados, pastores, pessoas apaixonadas e uma série de enganos divertidos em um mundo totalmente analógico.
Curiosamente, Filodemo também é uma peça repleta de anacronismos que “demonstram uma certa despreocupação com a lógica e um enorme experimentalismo no uso da língua e da forma” por parte do jovem Camões. Aqui já é possível vislumbrar a “grande inventividade do poeta” e seu caráter “aventureiro, alguém que aprecia os prazeres da vida”, bem distante daquela “figura mitificada que vemos nas estátuas.”
A personagem do cortesão amigo de Filodemo, Duriano (interpretado por June João), aparece como uma espécie de alter-ego do autor, “alguém bastante crítico dos autores que marcaram sua época, como Petrarca”, que cultivavam uma certa passividade amorosa em vez de explorar o amor de forma mais física e carnal. Penim observa que isso é sintomático no comportamento das mulheres da peça, “todas elas dispostas a demonstrar sua própria sexualidade e a recusar, até certo ponto, a submissão às normas vigentes.”
Reconhecendo que essa obra é tão pouco conhecida e ainda menos encenada – o encenador aponta que “é uma peça feita para ser representada e não lida” – o que é revelador de “um teatro que ostenta muitos sinais da genialidade do poeta”, Penim, como diretor artístico do Teatro Nacional D. Maria II, sente-se na missão de divulgar “as obras de grande fôlego da dramaturgia portuguesa”, incluindo Filodemo, composta junto com Auto dos Anfitriões, obras que se sabe terem sido escritas por Camões.
Encenar Camões também é um ato político, especialmente quando se observa a “instrumentalização destes ‘monumentos’ por parte de setores mais conservadores e autocráticos da sociedade portuguesa, como aconteceu durante o salazarismo.” Para Penim, Camões representa o oposto disso: “ele é o autor da multireferencialidade, do vampirismo de outras obras, da influência de várias geografias e vozes.” Assim, é fundamental “trazê-lo para uma realidade mais plural e aberta” e perceber “que podemos nos apropriar desses clássicos, preservando nossa história e seus símbolos.”
Além dos já mencionados Vítor Silva Costa como Filodemo e June João como Duriano, Filodemo conta com as atuações de Stela (Dionisa), Mariana Magalhães (Florimena), Ana Coimbra (Venadoro), Bernardo de Lacerda (Vilardo), João Grosso (Dom Lusidardo), José Neves (Pastor), Ana Tang (Solina) e Guilherme Arabolaza (Bobo). A peça estará em cena até 18 de abril.







