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Chiado

A Brasileira do Chiado celebra 120 anos, e ao longo desse tempo, a história está repleta de coincidências fascinantes.

Carregadores moços de fretes galegos de Lisboa na ilha dos galegos no Largo do Chiado em 1907.

Vamos escapar de ilusões. Em 1925, exatamente um século atrás, o café recebeu uma coleção notável de quadros. O espaço, conhecido na época como “Largo dos Galegos”, onde os trabalhadores mais humildes vendiam água e transportavam bagagens pesadas, ganhou uma estátua.

Um evento que uniu café e espaço.

Em novembro de 1925, o café, frequentado por artistas, enriqueceu seu ambiente com quadros criados por seus clientes que se tornaram artistas: Almada, António Soares, Jorge Barradas, Bernardo Marques, Pacheko, Stuart…

O café tornou-se um verdadeiro museu. No fundo, também representava negócios, uma palavra que denota falta de lazer.

Em dezembro, o local também se transformou. Um poeta, António Ribeiro Chiado, passou a ser lembrado, ainda que desconhecido, ao nomear uma estátua. Sentado em uma cadeira, ele se inclina e conversa com os transeuntes.

Foi há um século, e o Chiado e A Brasileira continuam a mesma essência hoje. O lugar com a antiga estátua e o café com novas obras.

Chiado
Ilustração: Nuno Saraiva

Ambos são ícones da cidade. Melhor dizendo, juntos, representam uma grande marca. Permitam-me fazer algumas perguntas, pois o jornalismo se alimenta de detalhes e de vidas simples.

Por isso, trago à tona o poema “Perguntas a um Operário Letrado”, de Bertold Brecht, escrito em 1935 durante tempos tormentosos, para nos levar a reflexões simples.

São versos que conduzem a perguntas. Cito apenas alguns:

“Quem construiu Tebas, a das sete portas/ Nos livros vem o nome dos reis/
Mas foram os reis que transportaram as pedras?
(…)
Babilónia, tantas vezes destruída…/
Quem outras tantas a reconstruiu?
(…)
O jovem Alexandre conquistou as Índias/
Sozinho?
(…)
César venceu os gauleses.
Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
(…)
Quando a sua armada se afundou / Filipe de Espanha chorou.
E ninguém mais?”

Menciono este poema famoso, pois desejo falar de um homem simples, um homem do café A Brasileira e também do Chiado.

Ele foi um garçom em A Brasileira.

O nome que ficou conhecido dele foi “João Franco”, dado por causa de sua semelhança com um político polêmico do final da Monarquia.

Na verdade, seu nome era Manuel Maria Queimadelos y Vieitez, galego.

João Franco, cidadão lisboeta e galego, como os trabalhadores do antigo Largo dos Galegos, que discutimos anteriormente.

Voltaremos a ele, e talvez descubramos, na simplicidade do homem, um símbolo mais significativo da história centenária da Brasileira do Chiado.

Em 1940, a Europa vivia uma tragédia. A maioria estava sob ocupação nazista e Lisboa era o último porto para escapar ao resto do mundo. O país abrigou muitos refugiados, que viram ali a sua única chance de escapar da morte.

Em janeiro de 1941, o médico Augusto d’Esaguy saiu do consultório na Rua Garrett e foi tomar seu café habitual na A Brasileira, frequentada há décadas, desde os tempos da revista Orpheu, com amigos como Pessoa, Almada e António Ferro.

Após o café, d’Esaguy concedeu uma entrevista ao Mundo Gráfico, que se posicionava ao lado dos Aliados e contra os nazistas durante a Segunda Guerra Mundial.

O médico era o principal contato em Portugal da Joint, uma organização judia americana que ajudava refugiados a conseguir vistos e embarcações para fugir.

Na entrevista, d’Esaguy relatou que estava prestes a embarcar para Nova Iorque para entregar fotos de um fotógrafo – o francês Roger Kahan – que capturou os mais comoventes testemunhos de desespero dos refugiados judeus em Portugal.

Semanas depois, d’Esaguy desembarcou em Nova Iorque e as fotos de Kahan foram entregues às autoridades, ajudando a mudar a política dos Estados Unidos, que até então havia negado vistos aos judeus.

Em outubro de 1941, o Diário de Lisboa publicou uma crônica estranha escrita por d’Esaguy a partir de Nova Iorque.

Nela, ele descrevia estar em um bairro de Manhattan, no Café Royal, frequentado por artistas, escritores e figuras do teatro vanguardista.

E, ali, reparou “num velho criado que conhece todos os clientes”. Intelectuais com quem discutia os livros deles e as suas obras. E Esaguy rematava: “Como o nosso João Franco da Brasileira do Chiado.”

Quer dizer, antes da entrada da América na guerra, um protagonista de um ato glorioso que Lisboa deveria enaltecer, recordou o empregado de mesa João Franco.

Seria mero exagero de um exilado, consumido pela saudade? Pensem novamente, João Franco já havia deixado sua marca na cidade.

No mesmo ano em que a crônica foi publicada no DL (15-10-1941), o mesmo jornal já havia publicado uma crônica em janeiro de um renomado linguista, Albino Lapa, que reunia expressões populares dos cafés lisboetas.

Esse texto terminava citando “rádio-ativo”, um tônico de café, “emoliente”, um carioca, e “giratório”, café preparado com água da Pedras Salgadas. Lapa acrescentava que “estes três exemplos são da autoria do popular João Franco da Brasileira do Chiado.” O dicionário seria publicado em 1959, com prefácio de Aquilino Ribeiro.

Mas, voltando à crônica antiga de Esaguy: “Quando o Nyassa chegou ao porto de Nova Iorque, fui a bordo encharcar-me com a giratória morna, estranha bebida do João Franco. Quando voltei para casa, ouvi pela primeira vez a rádio portuguesa: – a Beatriz Costa, em disco, na Marcha de Benfica. Foi uma alegria que explodiu dentro de mim.”

Muitos anos antes, em 1928, João Franco já era lembrado por seus clientes – Teixeira de Pascoaes, Matos Sequeira, Jorge Barradas, Joshua Benoliel, Amarelhe o desenhou… Uma amizade mútua.

João Franco nutria enorme respeito por Almada Negreiros, cliente habitual da Brasileira.

Quando Almada se mudou para Madrid em 1927, João Franco frequentemente expressava: “Quanto daria agora o senhor Almada por um cafezinho da Brasileira!”

Até que, em junho de 1928, um frequentador da Brasileira foi até João e perguntou: “Oh! João, e se você realmente levasse um cafezinho da Brasileira para o senhor Almada em Madrid?”

Foi dito e feito. Poucos dias depois, quase um século atrás, um avião Junkers chegou a Madrid, transportando João Franco, que foi recebido no aeroporto por vários artistas espanhóis e portugueses.

Nessa noite, João Franco serviu o “cafezinho da Brasileira” ao amigo Almada Negreiros na Granja del Henar, um café madrileno, afim do café do Chiado…

Esse episódio ganhou grande destaque na mídia espanhola, e o Diário de Lisboa publicou várias crônicas com títulos como “Um café com asas”, “Lisboa-Madrid em cafeteira”… Reinaldo Ferreira, conhecido como Repórter X, escreveu uma crônica para o portuense Primeiro de Janeiro. Almada fez mais um desenho do amigo e da cafeteira.

Um galego lisboeta, homem simples e de bandeja, João Franco se tornou um herói temporário no Café Granja del Henar, na Calle Alcalá, em Madrid. Não era um café qualquer; André Malraux, anos depois, dedicou um capítulo inteiro do seu romance A Esperança ao terraço da Granja del Henar, que desempenhou um papel crucial na defesa de Madrid contra o golpe franquista durante a Guerra Civil (1936-1939).

Em seguida, o Generalíssimo Francisco Franco triunfou, e poderíamos epilogar sobre como esse acontecimento levou ao fechamento do Café Granja del Henar. Mas esta crônica fala sobre os João Franco que nem são Franco, apenas por empréstimo. Trata-se de João que se chamam Manuel Maria, mas o que importa sobre eles é o que fazem, o serviço, e muitas vezes não somos conscientes disso.

Com todo o respeito e admiração (oh, quanto, por todos eles), e resumindo:

Pessoa escreveu poesia, Almada inovou, Benoliel capturou imagens, Chiado nos interroga, Esaguy salvou vidas, Matos Sequeira documentou, António Ferro organizou, Bernardo Marques pintou – todos brilharam, alguns consistentemente.

Mas pergunto a todos os letrados que leem isto:

Nunca houve, ali, quem lhes tenha servido um café? Ah, como perdemos tanto por não reconhecermos os simples.

Esta crônica foi lida ao vivo, na Mensagem ao Vivo: Especial Chiado e 120 anos d’A Brasileira, em 19 de novembro de 2025. E foi também ilustrada ao vivo por Nuno Saraiva.

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